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quinta-feira, junho 11, 2009

Errar é humano? ou a culpa é das máquinas?


Cada dia que passa mais me vou convencendo de que o melhor estado para uma mulher é o estar sozinha. Eles acabam sendo uns emplastros, deus me valha, que o vigor com que atacam a carne não compensa as dores de cabeça.
Como foi? Eu conto.
Apesar de ser uma criatura das matemáticas com uma realidade baseada em raciocínios frios e complexos, o Alberto chegou-me com falinhas mansas a olhar-me de cima, como se eu fosse ignorante das estruturas da arquitectura informática. Ele sabe-a toda, pensei logo no primeiro contracto; porém, os atributos sensíveis à execução aqui do “je” foram desenhados há já muitos anos e para conhecer o funcionamento interno de uma mulher ainda falta muito aos homens.
É que a mim a gestão de equipamentos nunca me passou ao lado. Programar é coisa que faço com uma perna às costas e a electrónica digital é cá das minhas há muito, muito tempo, na falta de sistemas de processamento ou mesmo quando o volume dos dados é escasso.
Ele veio-me com aquela capacidade de raciocinar de uma forma lógica e estruturada, definindo pressupostos, estabelecendo etapas, querendo tirar conclusões numericamente fundamentadas, mas quem fez a avaliação dos resultados fui eu, cansada já da conversa das competências.
Aquilo de montar os chips, depois de conceber o modelo não é a melhor abordagem e o vício das máquinas torna os homens peças simples de uma qualquer linha de montagem. E eu, que monto bem qualquer engenho, não deixo de ser exigente com a autenticidade dos elementos. Por isso é que me enfastiou aquela sequência de instruções que não visavam mais do que tornar-me um simples processador. Ainda por cima com exigências de garantia de satisfação. Era fazer login e zás, a coisa dava-se! Era bom que as mulheres andassem ali na casa dos GHz e pudessem processar centenas de milhões de instruções por minuto, não era? Mas para isso, no mínimo, era preciso que partilhássemos os mecanismos de comutação, meu anjo, porque os circuitos de apoio, mesmo estando na motherboard, carecem de conectores adequados.
O mínimo erro custa milhões, dizia ele. Mas meu querido Alberto, bem sei que errar é humano; por isso é que de futuro vou optar por contratar software pronto.

segunda-feira, março 02, 2009

O Senhor Silva


Ele tinha até um jeito engraçado de falar, uma coisa assim entre o chefe de secção e o dono de casa. Mas era cinzento dos pés à cabeça e isso aborreceu-me. Até porque o antevi de pantufas e de comando na mão a ressonar num sofá de paninho coçado.
Contudo a agência matrimonial tinha-nos posto no mesmo caminho e eu acreditei que aquilo funcionava, pois tinha pago uma quantia razoável para desperdiçar ali todas as minhas esperanças.
Aquela horazita de conversa enfastiou-me e não hesitei em demonstrar-lhe que eu não era a pessoa indicada. Há que ser diplomata nas alturas certas e não ia dizer-lhe que as mãozinhas sapudas me arrepiavam mais do que a falta de cabelo, que uma mulher não se pode guiar apenas pela contagem dos pêlos.
Enfim, lá fui ao jantarito, mas fiz descambar a conversa pois estava interessada em vencê-lo pelos excessos escabrosos, mas parece que quanto pior me pintava mais ele arregalava os olhos. Homem estranho, ostentando um sentido de humor dito assim em confissão, que quem o tem não o declara, mostra-o.
Às tantas pensei que devia aproveitar. O homem devia ter alguns atributos, não era possível que me tivessem vendido uma mercadoria de tão pouco valor. Fecharia os olhos e aguçaria os sentidos. Tinha bebido o suficiente para que a tontura fosse gostosa e a promessa de uma noite em glória elevava-me o volume da satisfação, visível quer no rubor das faces, quer na dimensão da parte superior de um decote escolhido para a ocasião. Esperava eu que a elevação fosse bilateral e, de preferência, duradoura. Mas… o que se seguiu ainda me aflige a tranquilidade das mãos e o que recordo é a pele arroxeada e morta de uma coisa fria e sem uso. Não estranhem a frieza com que o digo. Ali até a saliva era fria. E nem umas mãos calorosas e um corpo arqueando-se em malabarismos fizeram o milagre da ressuscitação.
Não sei se ficou vexado. O que me pareceu, na realidade, é que aquilo devia ser habitual e que mais um fracasso não lhe acrescentara nem diminuíra nada.
Fica uma mulher a babar-se de excitação, antevendo horas de trabalho duro até à vitória final e depois tem de bater assim em retirada como se cada minuto a mais fosse um ultraje à sua honra de fêmea.

Ó senhor Silva, bem sei que estamos no era do digital mas a uma mulher ainda lhe sabem bem as tecnologias antigas!




domingo, janeiro 06, 2008

cuecas azuis dão sorte?


Apareceu-me assim na noite da passagem de ano e disse que a coisa só funcionava se eu me apresentasse da cuequinha azul. Dizia que era para dar sorte.
Ora eu que não sou nada dessas superstições – já me conhecem o lado pragmático, não conhecem? – e que detesto consumismos de coisas inúteis, exibi-lhe a gaveta a abarrotar de lingerie variada e fiquei à espera dos olhitos mansos de macho a deixar-se vencer pela sedução dos cetins.
Que cena triste!
Ainda telefonei a duas amigas a ver qual delas me emprestava o acessório - aquela hora onde é que havia comércio aberto? - mas cada uma delas estava a usar o dito, ou antes, as ditas, e tive de reconhecer que aquele dia era de facto o dia da pouca sorte, pois o fulano, visivelmente incomodado, não se portou nem bem nem mal e no fim desapareceu tão depressa quanto tinha chegado, que nem a garrafita do espumante tínhamos ainda acabado.
Fica uma mulher de castigo a engolir as passas para ver se se passa alguma coisa de extraordinário e verga-se a mais uma frustração por causa de umas cuecas.
Isto compreende-se?

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Mise en Scène


Essa coisa da mise em scène fez-me lembrar o Tozé.
Nunca vivi dias tão bem representados. Ele fazia da vida um palco, o lugar onde o drama acontecia a qualquer hora do dia ou da noite.
Mas não falemos de dramas na sua verdadeira acepção pois a língua portuguesa não nos deixa muitas margens. Falemos de entretenimento.
O Tozé tinha o bom hábito de começar sempre pelo estudo da obra analisando cada elemento com o detalhe necessário ao bom desempenho. Durante os ensaios criava e definia caracterizações comportamentais mas tudo com muita movimentação no cenário; o investimento queria-se forte nas atitudes, nos gestos, nas entradas e saídas, enfim, em todos os elementos dos quais dependia o ritmo geral da sua actuação. De facto a resistência física de um actor é uma condição sine qua non para o sucesso, pois pode ser solicitado a executar movimentos exigentes, das acrobacias às pantomimas, da ginástica à dança, pelo que nunca me furtei à maior colaboração no sentido de o manter em forma.
Aquilo é que eram horas de trabalho!
O Tozé era também um grande especialista em dobragens, dizia ele, porque in loco, nunca o vi nesse desempenho, o que foi para mim, diga-se de passagem, fonte de grande frustração, tendo em conta o grau de expectativa. E o que mais me ficou em registo foi um pequeno senão relacionado com o hábito de decorar textos e movimentos. Precisando, como qualquer actor, de uma excelente memória, dei com ele a perguntar-me se não havia "ponto", num dos momentos em que uma terrível “branca” lhe negou a capacidade de continuar a acção.


segunda-feira, dezembro 17, 2007

Comparações


Fiquei ali presa, qual adolescente deslumbrada, amarrada às formas, embevecida com a perfeição dos traços, a lembrar todos os Apolos sobre quem as minhas paixões haviam recaído.
Ele era a personificação da beleza mais completa, a dignidade do amante mais terno, a marca perfeita da luxúria, a ânsia do desejo mais corpóreo, a euforia do sonho, a contemplação…


… mas, meu deus, tanta pólvora para tão pouco rastilho?


Não há dúvida! A natureza nunca é perfeita, mas pedra é pedra e a dureza nunca se despreza!
Mas… por que razão tem a fantasia de se assemelhar tanto à realidade?

sexta-feira, outubro 12, 2007

investir em asas curtas?


Tinha de ser amador; não estou a ver que a criação de passarinhos se faça em regime profissional com quadros de nomeação definitiva e essas coisas. Tão amador que nem tentou arrastar-me a asa e foi preciso eu abrir o bico para ele perceber que afinal tinha ali ao lado - e à mão de semear - uma passarinha.
Não aguento mais este investimento a fundo perdido; nem tão pouco o fundo dos fundos que é onde me sinto ao chegar a casa, de asa tombada e bico rombo.
Que pode uma mulher fazer com um ornitólogo de barriguinha balofa a cheirar a alpista e que passa uma hora a falar do acasalamento das aves?
O que é que fiz? Armei-me em catatua, emproei a popa e arrimei-lhe uma daquelas frases que usualmente caem das varandas das casas decadentes ou das portas das tascas onde o papagaio parece que se enfrascou. Deixei-o de asa à banda!

Venham, poetas, venham!, e escrevam para mim sonetos alados.
Debicarei cada palavra, cada verso, cada rima. E, saltitando, soletrarei os decassílabos, um a um.


domingo, junho 10, 2007

Voos em queda

imagem daqui


Detesto homens burros.
Não sei como fui capaz de fazer a cedência mas pronto, uma mulher tem de aumentar o seu nível de conhecimentos empíricos nem que seja de olhos fechados.
Afinal ele até prometia dez horas seguidas de elevado nível e eu, que detesto horas mortas, apeteceu-me preenchê-las com a confirmação de tal desempenho.
E depois… os apregoados galões davam à cena um ar um tanto institucional, ainda por cima com as credenciais da Força Aérea Portuguesa e com a promessa em voo de umas horas nos píncaros da glória.
Ai Fausta Paixão, por que caminhos andas!!!
Não tinhas necessidade de fazer mais uma vez a verificação da fanfarronice masculina, especialmente quando ela é galardoada. Os píncaros da glória tê-los-ia atingido o Major Alvega, esse mocetão do nosso imaginário adolescente. Mas este não lhe chegava aos calcanhares, nem no solo nem nas alturas, apesar daquela paranóia pelo controlo aéreo, que ele bem esticava os bracitos para me alcançar a parte superior – o gajo era daqueles que são obcecados por mamas.
Que coisa enfadonha, a mexeriquice e o palavrear esquizofrénico com vista à tentativa desesperada de dar vantagem corpórea ao apêndice. Parecia-me até que a paranóia do cumprimento da missão estava ali colada ao cabelo ralo do major, que só se calava nos momentos em que a língua rastreava os canais. Sempre desafiado pela força da gravidade, digo eu, que a queda dos graves é a primeira coisa que salta à vista de uma mulher.
Acho mesmo que sofria de desorientação espacial, a julgar pelo modo como os olhos lhe saíam das órbitas enquanto se contorcia para gerir os fracos recursos humanos com que a natureza o dotou.
E depois a conversa fiada sobre os movimentos de instabilidade, os desequilíbrios, a resposta do ser vivo na procura de um novo equilíbrio, blá, blá blá… com uma espiritualidade fundada nos Paulos Coelhos que decoravam a estante, deram-me cabo da paciência.
Voos autopropulsionados? Nunca mais!
Nem voos de reconhecimento… que o índice de risco é deveras superior à paranóia do terrorismo internacional com que fui bombardeada do princípio ao fim.

E foi assim que eu aprendi um palavrear novo, muito aeronáutico, tendo desejado, retrognosticamente, nunca me ter passado pela cabeça alistar-me na força aérea.

sexta-feira, abril 20, 2007

Terapia da fala


Há coisas de que é difícil uma mulher recuperar
De vez em quando lá me vejo a braços com merda suficiente para me debruçar sobre a desgraça e ficar uns dias de molho.
É aquela promessa de aleluia, gemida em agudos, que me deixa constantes ilusões; mas o que eu sou, mesmo, é uma ingénua… venham cá vocês dizer se se pode confiar nos homens! Era o podes! Chibos, espécie de gentinha encornada, camelos embossados em vistas curtas, de armadura em riste como se a vida fosse apenas enrolanço e beijação.
Uma mulher quer mais.
Nunca neguei que gosto de cama, onde quer que ela seja feita. Acusem-me de perversidade, vá, eu não levo a mal... já comi fruta madura e outra fora da época; já adocei a boca com mel, mesmo, daquele mais biológico; já fiz ginástica suficiente para muscular a flacidez dos desgostos por que vou passando, já armei muitas cenas, já deixei gajos apeados, já fiquei apeada…
… mas gosto de me apaixonar, pronto! Chamem-me louca mas o meu sonho é viver um Grande Amor!
… e quando um gajo se vira para o outro lado e me diz que está com enxaqueca… eu passo-me!
Enfiei-lhe dois trifenes no bucho e disse-lhe: coração, ou te pões grosso ou tenho ali uns supositórios que fazem efeito instantâneo e dão alívio imediato.
Esfregou os olhos, que encenavam sombra com as pálpebras, abriu-os muito e gaguejou…
E olha, disse eu já com a voz grave, um gago não me serve para nada… a única terapia que gosto de pôr em prática é a do falo!
Acham que ele percebeu? Pois eu não tenho assim tanta certeza! Nem quero saber…


É terrível esta minha busca…
… mas se eu um dia desisto de compreender os homens é a minha desgraça!



sexta-feira, março 23, 2007

Vegetais e afins




A mim o que me apetecia era um bife do lombo, espesso e a transbordar de natas; ou comida alentejana… um chouriço assado para abrir a sessão, uma febras de porco preto… um naco na pedra… qualquer coisa de carnal, suculenta, proteica, substante!
Mas ele insistia no vegetariano… dizendo que só assim se conseguia manter o corpo são e a mente pura.
Ora o corpinho saudável não era coisa de desprezar, mas aquilo da mente soava a roupa demasiado lavada… assim tipo lençol de hospital, e para asséptico já chegara a experiência de um tal Ângelo de mãos esguias.
Não, não me apetecia ficar-me pelas cenouras, nabos e folhas de couve… com aquele intragável arroz branco, mesmo que fosse aromatizado com ervas e limão. A ideia dos tomates secos ou das beringelas engelhadas tirava-me a pica toda.
Bróculos? Oh deuses… o que é que uma mulher faz com um molho de bróculos marinados? E cebolinho? Valha-me deus, que coisinha fina!
Ele que vá saltear os vegetais para a casinha da mãe, que essas que têm muito orgulho na saúde dos seus rebentinhos, mesmo que eles já tenham apagado as quarenta velas de aniversário.
Não tenho paciência para as ervinhas de cheiro!

Paixões?
Que grandes enganos!!!




sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Encenações

O que mais me aborreceu foi aquela mania de supervisionar e dirigir a montagem. Mais do que aborrecer… direi mesmo que me foi insuportável tanta presunção de profissionalismo.
Criar e interpretar personagens sim, tudo bem, mas com funções pedagógicas? Ou pior, ainda, com funções de intervenção política? Ele pensava que estava a lidar com quem?
Às tantas se não me tivesse livrado dele ainda me caía ali com os argumentos moralistas dos defensores do não!
É que nas representações vocais e corporais ele não tinha nadinha a repreender no meu desempenho. Nos adereços eu esforçava-me por ser diversificada e no guarda-roupa, enfim, sempre me valia das minhas formas e dava um jeito para conjugar estilo e economia, ‘tá bem, não se pode ter tudo… ou pode? Ele é que não fazia esforço de inovação e os auxiliares nunca estavam a jeito quando as anotações apresentavam linhas em branco.
Recriar… recriar… enfrentar o desconhecido para o recriar como se fosse novo…
E eu ali a vê-lo em plena encenação, à espera da cena mais desejada.
Quem me manda a mim meter-me com gente do espectáculo! Espectáculo é o que eu procuro sempre mas estes, então, é um ver se te desembaraças porque o que lhes interessa não é mais do que a perspectiva pessoal, a filosofia do palco, a ideia de que todo o processo de conhecimento deve constituir-se de uma parcela de não intencionalidade… e tal…
Ah, como eu me deixo levar facilmente por filosofias!
De naturalista e realista vi pouco, em má hora lhe dei ouvidos quando me disse que a performance seria basicamente uma linguagem da experimentação sem compromissos.
O que é que vocês faziam se vos propusessem uma experimentação sem compromissos? O mesmo que eu, certamente! E ainda por cima com aquela promessa de lidar bem com a transgressão, desobstruindo os impedimentos e as interdições colocadas pela realidade!
Ok, eu sei que a vida é um jogo teatral, uma encenação. Mas se ele dizia querer experimentar propostas cénicas que não tivessem o texto como ponto de partida por que é que passou o tempo todo a falar, a falar e acção… népias!
Meto-me em cada cena!

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Quando os astros são asteróides



Não parava com aquela conversa de modelos físico-matemáticos baseados nas interacções: era a interacção electromagnética, a interacção fraca, a interacção forte e a interacção gravitacional. Meu deus… só a palavra chegava para activar a minha cosmogonia interna. Eriçava-me toda, eu, quase a entrar na zona de ionização da nebulosa ante a perspectiva da exploração de novas fronteiras. Era lá que os fotões assumiam a sua energia máxima, não havia que hesitar.
Fiz-me convidada para ir ao observatório. Espreitar o telescópio era um desejo legítimo. Pudera!, sabendo-o equipado com um sistema complexo de detecção de dados e um sensor CCD , estava absolutamente segura de conseguir ver todas as estrelas, todos os planetas e todos os cometas do sistema solar, podendo, talvez com maior propriedade, ver também os do sistema lunar ou quem sabe os de um sistema qualquer inter-galáctico. Se aquilo metia “coupled” na descodificação, oh deuses, era para rumar ao zénite, à galáxia anular, à fusão nuclear… eu sei lá o que era… eram as ondas gravitacionais já a imprimirem balanço à acção e eu a tentar maximizar a detecção do sinal fraco, na ânsia de me tornar numa super-nova!
Este fascínio pelos astros mata-me – é como um pólo de atracção permanente, uma carga magnética inevitável que me leva vezes sem conta às cenas mais insólitas.
É claro que em vez das estrelas fiquei a ver uma chuvita de meteoros, ali, antes do tempo previsto para o pulsar binário, porque se o homem era o máximo na astronomia extra-galáctica… o mesmo não se pode dizer da eficácia da lente. Havia ali um grãozinho qualquer na engrenagem, talvez a posição ou o movimento dos objectos astronómicos ou uma evidência indirecta na maneira de lidar com tecnologias de ponta, sei lá!
O que é certo é que eu esperava assim como que uma entrada em órbita celeste, enfim, já não falo de um buraco negro porque essa zona misteriosa podia acabar comigo e com ele ali numa fracção de segundos e se é certo que o caos sempre me atraiu, também não valia a pena entrar na quinta dimensão. Mas entre o fracasso da quinta e o levar com um asteróide em cima antes da primeira vai uma diferença grande – tudo uma questão de corpo pequeno, portanto!
E nada mais há a acrescentar a este caos depois de mais um fracasso astrofísico: eu a querer medir os fractais, e a apanhar com a imprevisibilidade dos comportamentos das superfícies. Tinham-me dito que mesmo no caos podem ocorrer arranjos e alguma forma de ordem mas parece que comigo o que resulta são os axiomas intuitivos.
Decididamente, vou dedicar-me à astrologia.

sábado, janeiro 20, 2007

oralidades


A actuação do jovem iniciou-se com uma avaliação da minha saúde oral.
Chamava-me paciente, para a cena ser mais verosimilhante. Pelo menos foi o que eu idealizei, mal me sentei na cadeira e ele a elevou até pousar os olhos sobre o meu peito. E eu a fingir paciência, por via daquele olhar muito lânguido, por detrás do plástico protector dos óculos.
Examinou-me a região intra-oral, através da qual observou minuciosamente a língua e o palato. As palavras, pronunciadas ali mesmo sobre o rosto, traziam um hálito a flores frescas, infelizmente quebrado pelo cheiro forte dos anestésicos.
... e a sessão, propriamante dita, ia começar!
Bem… aplicar o produto não custava, disso eu já tinha experiência; remover cálculos e manchas ainda vá que não vá, podia ser a etapa seguinte, mas a coisa azedou foi quando me falou na dessensibilização do seis e do nove, por excesso de hipersensibilidade.
E mais: aplicar selantes nas fissuras?! Ah não, isso seria demasiada cedência e uma mulher não pode entregar assim as decisões, de boca aberta, nas mãos do outro!
Que é que ele pensava? Que era assim que me incentivava às visitas regulares para a rotina? Que me mudava os hábitos alimentares e me impedia do prazer dos doces?
Um plano de tratamento só com a minha anuição, porque nisso de polimentos, alisamentos e amálgamas eu só alinhava se tivesse confiança nos instrumentos, particularmente no aspirador de saliva ou até no próprio aparelho de RX intra-oral, porque a boca de cada um é propriedade sua e nas minhas raízes não era qualquer pessoa que tocava.
E ele que não me viesse cá ensinar a técnica da escovagem porque se ela era frequente ou não era problema meu!
É claro que, de boca aberta, eu não lhe podia dizer nada disto, nem sequer dizer que sim, que já levava muitos anos de uso fio dental. Mas logo que ele recolheu o tubo lambi a secura dos lábios e fiz-me cara no troco: disse-lhe que era capaz de me sujeitar a tudo, mas que a minha hipersensibilidade tinha de permanecer a cem por cento.
Quanto às fissuras, ele que fosse apresentar a sugestão dos selantes à mãezinha dele porque essa sim, já devia estar fora de prazo!

domingo, janeiro 07, 2007

Camelo!!!



Era para ser sua co-pilota, disse ele num telefonema urgente.
Foi há umas três semanas, não havia tempo a perder. Só vos digo que nunca me tinha aplicado tanto nos treinos. Apliquei-me tanto, tanto... que ainda hoje os meus ouvidos se ressentem da violência, que o ronco do motor de um camião é coisa de abalroar, garanto-vos.
Treino permanente para reforçar a condição física e psicológica... tudo p’ra cima!, que uma pessoa quando se embrenha na co-pilotagem não pode fazê-lo por menos. Aquilo desgasta... mas desgasta!!!
7915 quilómetros em todo-o-terreno prometiam as quotas máximas. Dezasseis dias de bem- bom, pensava eu a atacar, à força toda, nos primeiros quilómetros... e sem capotar!
E não seria só trabalho... a segurança (só bombeiros eram 170...), o convívio (com 508 veículos, vá lá... pelo menos metade com co-pilotagem, porque os motards andam bem por conta própria... acrescentando o suporte mecânico, o mediático e os mirones... aquilo daria aí para cima de mil e tal cromos, à noite, no Hotel). Mais a paisagem, as dunas, os pós, os camelos...
Bem... podem compreender o tamanho da minha frustração, aqui em casa, hoje, a lavrar mais um queixume.
Mas eu conto tudo:
Depois de bem treinados eu e o Diogo Cunha Rego tínhamos todas as condições para efectuar uma boa prova, desde a potência da máquina à vontade férrea e incontrolável de levar tudo à frente. Ele apostava num bom tempo para as classificativas e eu, colaborante, achei que uma hora, vinte minutos e trinta e oito segundos, para começar, não era nada mau! Dei, pois, tudo o que me era possível, não obstante os atascansos sucessivos. E que pica que eles davam! Depois de racionalizado o espaço a bordo para nos sentirmos à vontade, trocámos de centralina e ensaiamos a tracção traseira; mas a tracção às quatro, essa sim, firme e segura, era a nossa aposta. Bom andamento vivo, um espanto de caixa de velocidades, pronta para atacar as dunas de frente, a um ângulo de 90 graus; ou mesmo usando as redutoras (na quarta ou na quinta, pelo menos), para fazer render a prova.
Ele era cheio de cuidados: ajeitou o compressor para encher os pneus nos intervalos, montou um sistema de navegação que incluía um desenrolador eléctrico road-book, um conta quilómetros com comando lateral e GPS orientado e extensível, fez exercício de perícia em terra batida, sem esquecer as zonas dos buracos e... bem... a perspectiva de curtição era o máximo...


Mas não. O Diogo Cunha Rego (o Dico, como todos lhe chamavam), ali mesmo em cima da hora, trocou-me por um co-piloto com dois metros de altura, cavas longas e uma mota XXL tatuada no bíceps.

Uma mulher aguenta isto?


sexta-feira, dezembro 15, 2006

Só encontrei gelo



Arrefeci um pouco no gelo do Norte. Não trouxe o Natalino.
Também não encontrei o Pai Natal. Não sei se estava fechado em casa, farto de mulherio ou se por ali as pessoas desaparecem, como duendes na floresta.
Aqui no Sul a gente tem sempre mais calor. Deve ser por isso que gostamos de andar na rua e falar muito. Bem... também gostamos de estar em casa, de preferência no aconchego de uns pézinhos quentes. Se para alguma coisa os homens servem é para esse pequena falha que nos acontece no Inverno.
Os homens do Norte são calados, sentam-se quietos, de mãos no colo e olhos de carneirinho. Não sei como são na cama, não cheguei a vias de facto, mas aquilo não me pareceu chão que desse uvas. O vinho, aliás era sempre do Sul.
Estou melancólica? parece que sim. Deve ser o efeito do mês de Dezembro, que é um mês que todos detestam, embora finjam que não e continuem a pendurar as bolas nas árvores de natal.
Não há pendurezas que resistam a tanta repetição, anos e anos seguidos!

Viram a fotografia? Pois é isso mesmo!
Por agora nada mais do que gelo e árvores despidas.

sábado, dezembro 02, 2006

e nem à lupa!!!

Eu esquadrinhei os lugares certos, passei a mão por tudo o que era simulacro de volume, olhei de frente, de lado e de trás... e, não confiando no tacto, recorri aos outros sentidos: cheirei, fechei os olhos para ouvir a ressonância dos interiores, abri os olhos para me enfeitiçar de novo na profundidade dos dele... faróis que iluminavam a noite e eu perdida na luz divina da perfeição.
E só eu sei o que me tentam uns olhos assim sedosos, a chamar a chama, a laborar em labirinto louco, aprofundando o desejo na doçura da expectativa.
E poderia continuar a descrição, narrando também a demora, porque me apetecia fazer render aquele tempo preliminar...
... mas estava incomodada com a letargia, com tanta paz colada às mãos, com a imobilidade dos músculos em rosa vergado, belos... mas frios como todo o mármore.
Puxei da lupa.
Que diabo! Os que cheiram a cavalo suado afugentam-me; os apolíneos puxam por mim, mas por mais que eu aposte na reciprocidade... nem à lupa, deus meu... nem à lupa!!!
A falta dele é desesperante.
Mandei-o embora. Nem lhe quis saber o nome.
Ficou, definitivamente, anónimo!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Arquitectos e Projectos...


Ufa!
‘tava a ver que o gajo não descolava…
Nem vos digo… tenho os ouvidos cheios de projectos estruturantes, de módulos planimétricos, (os altimétricos guardou-os ele não sei onde, que nada vi que se elevasse em altura suficiente para uma experiência estética de fruição…).
Ainda me soa o conselho que aqui me deixaram os meus visitantes… especialmente aquele que dava uma certa definição de arquitecto...
De facto não posso dizer que o Frank fosse o protótipo do homem pragmático, lá isso é verdade; mas a mim atraem-me os artistas, que querem?!
De qualquer forma também não era inteiramente vidrado na harmonia das texturas e nessas coisas de decoração de interiores: nunca o vi enrolar-se em sedas nem em tules, não!, nada disso. Nem as formas lhe chamavam muito a atenção, o que bastante me desgostou porque eu bem tentei vários esquissos, na esperança que ele soubesse converter a coisa em planos de pormenor mas ele insistia na mais-valia dos encaixes, ou seja, andou a evitar as cavilhas (nem um pregozinho, digo-vos), porque, segundo dizia, as novas correntes artísticas dispensam o ferro nas ligações… é tudo na base do aglomerado e do contraplacado.
Quer dizer, lá me fazia um esboço de vez em quando… e deslumbrava-me mesmo; de outra forma não teria aguentado estes dias todos! Até porque me deu algum jeito aquela visão ecológica que ele apregoava: defensor da sustentabilidade e da reutilização, projectou o encaminhamento das águas da chuva para o autoclismo; depois argumentou que o quarto poderia ser requalificado, ideia que a minha mente esperançosa aproveitou logo: o que eu queria mesmo era rentabilizar o investimento pelo que lhe sugeri a tríade vitruviana como modelo.
Não sei se estão a ver! A coisa era simples e até podia envolver um ménage mais completo, mas o estúpido parecia só entender o que muito bem lhe convinha, como se veio a confirmar. Eu a querer ali a imagem masculina a multiplicar-se e a reflectir-se no espelho do quarto e ele a meter o Pitágoras ao barulho com a divindade dos números.
Confesso-vos já ando farta dos gregos: as maiores divindades nem sequer pêlos no peito tinham… onde é que já se viu um gajo de lira na mão a chamar as deusas? Ai Apolo… tens pinta de arquitecto, lá isso tens!
Conclusão: aquilo da venustas estava mais que provado: beleza não lhe faltava, era assim de uma mulher ficar enfeitiçada! Agora a utilitas propriamente dita, essa tinha de partir da firmitas e aí é que tudo se complicava porque ele rejeitava a nobreza dos materiais clássicos por falta de plasticidade. Ora o PVC é coisa de fazer vista mas falta-lhe aquele toque fino, falta-lhe proporção, volume…e a textura é de um desconforto arrepiante à vista. Quer dizer, em último caso, não havendo mais nada, serve. Mas eu tinha ali um homem dos mais belos que já conheci, cheio de técnicas que afirmava serem sustentáveis, com formação académica nas formas, nos ritmos, nos desfechos harmoniosos…
Será que era tudo influência daquilo que é o mais comum na nossa arquitectura que é a ostentação das fachadas? É que a correspondência entre o exterior e o interior… eu não dei por ela!!!
Para quem dizia que a arquitectura é música petrificada…
Música, sim! Musiquinha da mais minimalista, que nem uma flauta, nem o toque de uma harpa dedilhada com mestria…
Funcionaste tu?
Pois ele também não!!!
Na verdade tudo se ficou pelos projectos.
Obra feita – zero!
Se calhar qualquer Vasco Nabo especializado em materiais mais toscos e nos "há-des ver" orgulhosos e persistentes, era capaz de conseguir chegar mais alto, mesmo sem trazer os andaimes.

sexta-feira, outubro 27, 2006

In fraudem legis


Primeiro quis vendar-me os olhos. E eu, no uso da capacidade de gozo dos meus direitos, achei que o patrocínio das partes, que ele tanto apregoava, tinha todas as possibilidades para dar origem a uma ratificação no mínimo à altura do órgão competente. Era tudo uma questão de pró rata.
A definição das coordenadas fundamentais da posição de cada um deixava-me a braços com os fundamentos do direito. Tinha-se constituído, pois, a situação ideal para verificar a constitucionalidade da matéria formal, adiada vezes sem conta por falta de comparência da minha parte.
Incisivo – dizia ele – podes crer!, nunca menos do que isso!
Para mim incisivo era assim tipo curto e grosso; mas… in dubio pró réu, pois os meus preconceitos são facilmente contornáveis quando se trata da análise detalhada do corpus. Parto sempre daí, como manda a metodologia de qualquer recherche.
Mas eu conto: a insistência aguçou-me a curiosidade, embora o nosso conhecimento tivesse ocorrido numa situação chata: foi na altura do meu primeiro divórcio e ele teve aquela atitude paternalista do homem que, viciado na tutela dos mais fracos, achou que devia bater-se pelo habeas corpus, dando um murro na secretária quando lhe disse que a outra parte ansiava pelo contencioso.
Desde então ficou sempre pendente entre nós uma promessa de deveres recíprocos, mas ele tinha-se queixado de uma disfunção intestinal e eu, na altura a braços com merda suficiente para me atolar, ad cautelam, não dei azo ao trato proposto, até porque me fartei daquela conversa do direito potestativo. Não sou de ficar à espera que os braços de um homem me protejam das agruras da vida. Coitados, nem o direito patrimonial lhes confere a autonomia que uma mulher traz à nascença, quanto mais uns braços deontologicamente estatuídos.
Mas a minha curiosidade mata-me. Aquilo da concepção contratualista da sociedade fez eco durante uns tempos, até porque não sendo eu mulher de coacções, quando me ponho sobre a matéria não descanso enquanto não vou até ao fundo.
Aceitei, pois, ficar de olhos vendados. Mal sabia ele que estava a alimentar um dos meus fetiches. Oh deuses… até me senti desfalecer ante a perspectiva da aplicação do direito, assim em animus jocandi. O que depois me meteu raiva for a pega que ele me pôs na mão, associada a um tilintar de ferros. Sujeitei-me à contra ordenação e, ex abrupto, tirei a venda, não fosse o doutor estar à espera de uma violentação com base na matraca.
Uma balança? Para que queria ele que eu segurasse a balança? Teria dúvidas sobre o peso da sua matéria orgânica? Seria alguma regra de conduta sancionada e promulgada pela Ordem? Um modus operandi que eu desconhecia? É que há gente que, de tão normativa, consegue perder o sentido do gozo dos seus direitos! Que natureza social seria a daquele indivíduo, ali de joelhos no chão, a pedir-me sigilo ainda antes de iniciar a sessão.
Meto-me em cada uma!
De olhos esbugalhados encarei a caducidade da coisa como uma afronta e, sem apelo nem agravo, disse-lhe que não havia acórdão que resistisse a tamanha humilhação. A dele, porque para mim foi apenas mais um fracasso para a minha colecção...
E saiu-me, assim de rompante, ipsis verbis, esta chave de ouro: “olhe, querido, ponha a sua capacidade jurídica num dos pratos da balança que eu ponho a minha capacidade de gozo no outro. Vai ver qual de nós terá de ir à procura de um órgão mais competente!”

domingo, outubro 22, 2006

Fados e montarias

“… morreeer a cantar o faa-ado, nos braaaços de uma mulhee-er.”

Imaginem isto cantado com uma voz potente, acompanhada pelo trinar de uma guitarra portuguesa. Depois imaginem o dono da voz, de lenço às cornucópias bem ataviado por dentro dos colarinhos imaculados, copo na mão, calcanhares em riste nos agudos, arrancados aos solavancos da tristeza, da traição, da saudade e da desgraça.
E a seguir palmas. Os botões do casaco é que quase fugiam, num esforço um nadinha sebento para aguentar o inchaço do peito, na altura da ovação.
Quando as luzes aumentavam de intensidade dava-se conta da névoa de fumo de tabaco. Cheirava a morcela assada e o bacalhau à lagareiro deixou no prato um rasto de enjoo regado a azeite, aliviado apenas pela languidez do olhar fadista. “Mais um jarro, que o tinto engrossa a voz!”
Não se pode dizer que houvesse grossura nos gestos, mas finura é que nunca; ele era lá desses! Naturezas invertidas só a do criado de mesa, arrastando as sílabas finais com uma mão em riste, virada do avesso. Exemplar magriço que a trenga da mesa ao lado atabafava com o busto a descoberto, numa provocação meio despida que ela sabia não colher. São malévolas as mulheres inchadas pelo excesso daquelas drogas do bem-estar fingido. Mas não era para o busto dela que o fadista olhava... Lancei-lhe eu o feitiço ou foi a nostalgia do palavreado que nos atraiu?
Abri-lhe os braços, depois do sorriso e do esbugalhar de olhos que o deixou babado. Quer dizer, não abri propriamente os braços mas prometi-lhos e ele, habituado a estas lides, não se fez rogado na resposta.
Acendi um cigarro e levantei-me. Olhei-o de frente quando o contornei, como se estivesse a desafiar o touro para uma pega de caras. Fingi que ia sair.
Quando voltei tinha-o à perna. Piscou-me o olho. A noite estava ganha.
Ainda faltava um fadista no meu currículo; a ocasião não era para esperas. Dali até a casa seria uma eternidade e ele estava com pressa de pôr a viola no saco.
A noite fora cansativa mas homem que é homem conserva o vigor pela madrugada dentro e nem o mais pintado sabe assim as manhas do encanto imediato; o fado existe!
Porém, não obstante o carro ser espaçoso … o das cornucópias cor de mel sobre o azul do atavio queria-me, primeiro, a relinchar. Só depois é que ele conseguia iniciar a performance.
E eu, que até gosto de práticas equestres, sentindo-me ali mesmo muito defraudada, rumei ao picadeiro mais próximo e larguei-o junto à box da Giovanna, a égua mais bravia da colecção de raridades do Conde da Malveira.



domingo, outubro 15, 2006

... a pão e água!!!

A gente olha para um gajo e pensa: que pão! Ui, com a fominha que tenho…
Depois passa-nos assim uma coisa pela vista e pronto, lá vêm os males todos em catadupa: o pão tem glúten e às vezes bastam os hidratos de carbono em excesso para começar a desgraça; o leite tem caseína – dizem que mamar é coisa só mesmo para os bezerros; os doces têm açúcar, mas mesmo com edulcorante parece que não resulta porque aquilo que é alternativo faz ainda pior do que quando é ao natural; a carne é louca, o peixe tem mercúrio, os legumes crus têm resíduos agrotóxicos, o churrasco têm benzopirenos, o ovo tem colesterol, a salsicha tem gordura, a fibra enche o intestino, as coberturas são artificiais, a cafeína cria dependência, os aditivos são cancerígenos, os intensificadores de sabor provocam mal estar e palpitações, os conservantes provocam reacções alérgicas, um cachorro quente vem com aquele excesso de ketchup, para não falar nas gorduras saturadas de uma fatia especial de bacon, a meio de uma espetada mista.
Raios!
Nem uma fatiazinha de pão magro?
Qualquer dia estamos assépticas, ingerimos coisas inócuas como iogurtes magros e saladas de alface sem tomates, passamos a vida a fazer caminhadas para perder quilos, a olhar para eles, musculados que nem cavalos, esticadinhos nas flexões, agarrados àqueles troncos provocatórios dos mini-circuitos de manutenção dos parques das cidades. E litros de água... que é para andarmos sempre a fazer aquela triste figura do "desculpas-me uns minutos... é que tenho de ir à casinha!"
É que nem uma bejeca atoladinha de espuma a deixar marcas nos lábios!
E nem a porra de um cigarrito na boca, para não corrermos o risco de exibir em público um objectozinho fálico que dantes era apanágio masculino e que as mulheres tão bem souberam transformar em glamour, quando cruzam a perna e … olham para o pão sem lhe poderem tocar antes de lhe conhecerem o conteúdo nutricional…
Puta de vida!

quinta-feira, outubro 05, 2006

El toro


Nem sequer foi por uma questão de língua. Entendemo-nos perfeitamente e a dele era bastante acessível.
Também não me parece que as estocadas tivessem sido desperdiçadas; diziam que ele empregava quanta força tinha e o ferro nem dobrava, ia direitinho ao alvo à espera dos aplausos. Até me babei com a descrição.
Fui em corrida quando soube que ele bandarilhava pelos dois lados, como manda a tradição, após o duro castigo das varas. Gosto de castigos à antiga portuguesa, daqueles que nos fazem garbosas depois de apreciarmos o instinto e a força de alguém que vibra quando irrompe naquele espaço redondo.
E foi assim que entrei nesta lide.
Vi-o, pois, ajustar a taleguilla e colocar-se em posição, perfilando-se para a luta. Dizia que aquele trabalho exigia uma entrega total e que antes, dado o perigo iminente, tinha de dedicar uma oração à Virgem. Nessa parte da conversa tive uma vontadinha de rir que nem imaginam, mas contive-me, não fosse o “Chico” pensar que eu era descrente.
Falou em capote, o que me deixou bastante tranquila. Normalmente ninguém liga muito a esse pequeno acessório, mas gostei que ele tivesse demonstrado a sua nobreza com essa sugestão.
E lá estava ele, baloiçando o corpo num vai vem constante, de mãos nas ilhargas.
Depois destes preliminares benzeu-se e atirou o corpo todo de uma vez, exibindo a arte de fazer frente à fera, dizia ele. E eu a aguçar as garras...
... enquanto ele se ficava assim… dizendo umas coisas estranhas:
“Con siete años me enfrenté a un becerro y a los nueve debuté en público. Y ya me di cuenta de que me gustaba realmente”.
- Valha-me a santíssima Macarena! - pensei eu - que coisa é esta que me saíu na rifa. Bezerros? Aos sete anos?
Depois perguntou-me se eu gostava de actuações com muleta.
Então ... depois da promessa do tércio de varas e bandarilhas ... vem-me falar de muletas?
Entrei eu nesta lide para ficar apeada?
Bravura, meu caro! Só se for na ponta dos cornos!