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quarta-feira, abril 01, 2009

O publicitário

Como é que foi possível eu ter embarcado em mais uma?
Ah, santa ingenuidade não ter percebido que tudo não passava de publicidade enganosa! Num momento da vida nacional em que o investimento se encontra retraído eu devia ter tido cautelas, mas ele veio-me com aquela conversa das redes neurais e nem me apercebi que a coisa também metia inteligência artificial, porque se tivesse dado conta não daria importância à referência às outras técnicas que até hoje estavam apenas no imaginário ou nos filmes de ficção. Foi com essa promessa que me levou à certa, fartinha que ando de gente de baixa estatura.
Aquilo dos slogans a toda a hora bem me enfastiava, mas pronto, podia ser que o indivíduo se sentisse mais homem no seu papel de free-lancer e sem querer, até me deixei ir na voz activa do pregão.
Potenciar o valor do produto foi o que ele fez desde o princípio mas o que eu tive de descobrir sozinha é que aquilo não passava de uma técnica de gestão de marca … e de branding’s ando eu enjoada!

quinta-feira, março 05, 2009

Alô!!!

O Nando era casado. Era e será, que há nós que não se desfazem.
A mim pouco me incomodam os nós dos outros; a paixão quando aparece, com aquela força bruta, não olha a essas coisas e pede caminho livre.
Ora do caminho tratou o Nando. Eu por mim levei a lingerie e o tinto, que o serão, das outras vezes, tinha-se prolongado pela madrugada e a garganta secara.
Não vou falar aqui dos acessórios porque o Nando é um tímido e se o descobrem aqui ainda vai ficar encabulado, mas aviso já que me apetrechei bem apetrechada. Podem imaginar o que nos esperava naquele apartamento de turismo rural, ali para o sul caloroso do país.
O Nando gostava de me aconchegar a ele e ficar assim a mimar-me durante horas; ele era atenções, carinhos, roçadelas, miaus e patinhas no ar; enfim, de tudo um pouco e tudo regado com produtos de qualidade, desde o tinto ao branco.
E assim nos entretivemos durante horas; acho que até nos esquecemos do jantar porque a hora a que toda a cena aconteceu era já tardia e bem tardia!
Fui eu que vi o telemóvel a piscar e dei conta da situação; doutra forma creio que teria metido polícia e tudo! Pois se a polícia já andava no encalço dele, depois da esposa ter falado para os hospitais todos a saber se lhe tinha acontecido alguma coisa!
É que o Nando esquecera-se do telemóvel no silêncio e aquele telefonema da noite com que tranquilizava a esposa dizendo-lhe que estava no quarto do hotel a descansar dos trabalhos do congresso, falhara.
Bem… eu por mim tanto me fazia que ele comunicasse com a senhora ou não, que os hábitos das mulherzinhas controlarem os seus mais-que-tudo nas ausências era coisa que me passava bem ao lado. O mesmo já não posso dizer do desempenho do Nando, que quando se apercebeu que até já os filhos estavam metidos ao barulho, telefonema p’ra cá e telefonema p’ra lá, ficou incapaz de levantar um dedo. Aquilo parecia uma cena de velório, com uns contactos de urgência para uns amigos cúmplices e muitos ais de desespero.
Que é que eu fiz?
Ora, virei-me para o lado e adormeci na paz dos anjos, que uma mulher sabe tirar partido das situações em qualquer circunstância e o descanso traduz-se sempre em mais frescura na manhã seguinte. O Nando que fosse meter-se debaixo das saias da senhora dele, que eu, haveria de encontrar rapidamente um par de calças à minha medida!

domingo, junho 01, 2008

O Senhor Inspector


O senhor inspector era demasiado centrado em si próprio. Eu diria que a coisa mais importante do mundo para ele era o seu membro fálico, que queria ver inspeccionado ao milímetro e com fervor.
Inversão dos papéis mas só no que lhe convinha.
Desde o primeiro momento a sua grande preocupação foi fazer-me crer que o seu desempenho, avaliado em excelente, não precisava de se sujeitar a acções de aperfeiçoamento contínuo.
Ainda estou cá a pensar que o excelente lhe deve ter sido atribuído mais pelo número de casos do que pela qualidade. Digo eu, que aquilo de trabalhar para garantir a qualidade, e equidade e a justiça num quadro de responsabilização era conversa da treta, como se fosse um disco riscado a arranhar os ouvidinhos sensíveis de uma mulher como eu.
Não sei se é o excesso legislativo ou o excesso de acompanhamento, controlo, aferição e auditoria que põem um homem naquele estado, mas bem pensado qual é o homem, mesmo não tendo nada a ver com os órgãos de política criminal, que não sofra da tendência narcísica para fazer girar o mundo em torno da sua virilidade?
Eu é que fiquei em verdadeiro estado de choque quando percebi que as metas eram falaciosas e os alvos não passavam de decretos regulamentares.
Nem tive vontade para lhe testar as qualificações; saí porta fora sem dar cavaco, na defesa dos meus legítimos interesses, não fosse uma portaria qualquer obrigar-me à execução de um programa específico para o qual não estou minimamente vocacionada.