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segunda-feira, março 02, 2009

O Senhor Silva


Ele tinha até um jeito engraçado de falar, uma coisa assim entre o chefe de secção e o dono de casa. Mas era cinzento dos pés à cabeça e isso aborreceu-me. Até porque o antevi de pantufas e de comando na mão a ressonar num sofá de paninho coçado.
Contudo a agência matrimonial tinha-nos posto no mesmo caminho e eu acreditei que aquilo funcionava, pois tinha pago uma quantia razoável para desperdiçar ali todas as minhas esperanças.
Aquela horazita de conversa enfastiou-me e não hesitei em demonstrar-lhe que eu não era a pessoa indicada. Há que ser diplomata nas alturas certas e não ia dizer-lhe que as mãozinhas sapudas me arrepiavam mais do que a falta de cabelo, que uma mulher não se pode guiar apenas pela contagem dos pêlos.
Enfim, lá fui ao jantarito, mas fiz descambar a conversa pois estava interessada em vencê-lo pelos excessos escabrosos, mas parece que quanto pior me pintava mais ele arregalava os olhos. Homem estranho, ostentando um sentido de humor dito assim em confissão, que quem o tem não o declara, mostra-o.
Às tantas pensei que devia aproveitar. O homem devia ter alguns atributos, não era possível que me tivessem vendido uma mercadoria de tão pouco valor. Fecharia os olhos e aguçaria os sentidos. Tinha bebido o suficiente para que a tontura fosse gostosa e a promessa de uma noite em glória elevava-me o volume da satisfação, visível quer no rubor das faces, quer na dimensão da parte superior de um decote escolhido para a ocasião. Esperava eu que a elevação fosse bilateral e, de preferência, duradoura. Mas… o que se seguiu ainda me aflige a tranquilidade das mãos e o que recordo é a pele arroxeada e morta de uma coisa fria e sem uso. Não estranhem a frieza com que o digo. Ali até a saliva era fria. E nem umas mãos calorosas e um corpo arqueando-se em malabarismos fizeram o milagre da ressuscitação.
Não sei se ficou vexado. O que me pareceu, na realidade, é que aquilo devia ser habitual e que mais um fracasso não lhe acrescentara nem diminuíra nada.
Fica uma mulher a babar-se de excitação, antevendo horas de trabalho duro até à vitória final e depois tem de bater assim em retirada como se cada minuto a mais fosse um ultraje à sua honra de fêmea.

Ó senhor Silva, bem sei que estamos no era do digital mas a uma mulher ainda lhe sabem bem as tecnologias antigas!




sábado, fevereiro 03, 2007

O melhor jogador de mishu do mundo

Aliciou-me com aquele olhar matador, copo de vermute on the rocks na mão e muita, muita convicção. Não era comigo que falava mas ouvia-se bem o convite dirigido à companheira: “queres vir jogar michu p'ra minha casa? Não encontras ninguém tão bom a jogar mishu como eu”.
Eu, que tenho bom ouvido, apesar do som ambiente a muitos decibéis, ia ficando colada ao entusiasmo com que ele lhe dizia: “por cada cinco de seguida é a pontuação a subir”. E a parva fazia uma carinha de pouco convencida... Ao menos dizia que era giro comer sempre coisas diferentes, quanto mais não fosse por causa da música. Só nisso é que eu lhe dou razão, bem entendido, embora a música ali estivesse muito codificada. As opiniões das mulheres pouco me interessam, de facto... E ele que não, que não, que era mesmo necessário que fossem cinco iguais de seguida; e que o que fazia crescer o corpo era enfiar nas argolas – até lhes chamava donuts, imagine-se…
Que conversa! O pessoal depois de beber uns copos abusa das metáforas, pensava eu. Aquilo era musiquinha de engate, ‘tava-se mesmo a ver; e ela a dar-lhe p’ra trás! Palerma!!!
Pois o rapaz não era nada de se deitar fora e quando o ouvi dizer que passava horas naquilo até arregalei os ouvidos. Horas e horas pela noite dentro até já não ter forças nem concentração. Mas que era persistente e que não desistira até dar provas de ser o melhor.
De forma que, quando ela se despediu dizendo que não, que pelo menos hoje não estava preparada para aquele jogo, encarei-o de frente e lancei-lhe um sorriso cheio de sacanagem.
É claro que deu certo: pegou no copo e dirigiu-se à minha mesa com um ar triunfante: “Olá, sabias que eu sou o melhor jogador de michu do mundo? Sabias que sou detentor do record de 1790960 pontos? Queres vir a minha casa?"
Acham que ia perder a oportunidade? Pus a mão na malinha e confirmei se estava tudo em ordem; sim, tinha comprado outra caixinha, que aquilo gastava-se a uma grande velocidade; e nunca fiando nos gajos quando já estão com uns vermutes on the rocks no buxo! Mulher prevenida vale por duas.
Já em casa ligou os dois computadores e fez-me sentar ao lado dele: “tu jogas nesse e eu neste. O objectivo é este: o michu está esfomeado e tens de lhe dar comer. Se ele comer cinco peças iguais de seguida somas pontos, aí é que está o segredo da vitória”.
Ok, pensei, adoro jogos eróticos. Este gajo sabe fazê-las! Um mishu esfomeado devia dar cá uma luta!
… ... ...
Depois de duas horas a ouvir os dings, dongs, doings em séries de cinco e os poing-poing-poings, e de novo dings, e de novo doings e de novo dongs… a paciência esgotou-se: “alto lá com isto!, disse-lhe, tenho os olhos fodidos, os ouvidos até chiam, dói-me o pulso direito, já não aguento as costas nesta maldita cadeira… ... e as minhas expectativas reduzem-se a zero de cada vez que essa minhoca perde tamanho! Ainda vais ficar muito tempo a jogar?”
E ele: “é só até chegar aos dois milhões de pontos! E a minhoca tem nome - chama-se mishu! E se lhe deixo um corpo grande esmaga-se contra as pedras, não percebeste ainda?"
Estava no limite, eu!!! Levantei-me e gani, mas ele ainda teve lata para me dizer: "eu sei que sou o melhor do mundo mas tenho de deixar uma margem para ver se ninguém me bate nos próximos dias. Agora não posso desistir!”
E, sem tirar os olhos do monitor, sem reparar no pontapé que dei nas oito ou nove latas de cerveja alinhadas no chão da sala, no murro que dei na máquina do café e nas chávenas sujas que andavam lá por perto, acrescentou: “agora podes ir dizer a toda a gente que estiveste em casa do melhor jogador de mishu do mundo!”
Já na escada ainda continuei a ouvir os dings e os doings em séries sucessivas de cinco e a voz dele em som triunfante: “YESSSS!!!!!”

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Quando os astros são asteróides



Não parava com aquela conversa de modelos físico-matemáticos baseados nas interacções: era a interacção electromagnética, a interacção fraca, a interacção forte e a interacção gravitacional. Meu deus… só a palavra chegava para activar a minha cosmogonia interna. Eriçava-me toda, eu, quase a entrar na zona de ionização da nebulosa ante a perspectiva da exploração de novas fronteiras. Era lá que os fotões assumiam a sua energia máxima, não havia que hesitar.
Fiz-me convidada para ir ao observatório. Espreitar o telescópio era um desejo legítimo. Pudera!, sabendo-o equipado com um sistema complexo de detecção de dados e um sensor CCD , estava absolutamente segura de conseguir ver todas as estrelas, todos os planetas e todos os cometas do sistema solar, podendo, talvez com maior propriedade, ver também os do sistema lunar ou quem sabe os de um sistema qualquer inter-galáctico. Se aquilo metia “coupled” na descodificação, oh deuses, era para rumar ao zénite, à galáxia anular, à fusão nuclear… eu sei lá o que era… eram as ondas gravitacionais já a imprimirem balanço à acção e eu a tentar maximizar a detecção do sinal fraco, na ânsia de me tornar numa super-nova!
Este fascínio pelos astros mata-me – é como um pólo de atracção permanente, uma carga magnética inevitável que me leva vezes sem conta às cenas mais insólitas.
É claro que em vez das estrelas fiquei a ver uma chuvita de meteoros, ali, antes do tempo previsto para o pulsar binário, porque se o homem era o máximo na astronomia extra-galáctica… o mesmo não se pode dizer da eficácia da lente. Havia ali um grãozinho qualquer na engrenagem, talvez a posição ou o movimento dos objectos astronómicos ou uma evidência indirecta na maneira de lidar com tecnologias de ponta, sei lá!
O que é certo é que eu esperava assim como que uma entrada em órbita celeste, enfim, já não falo de um buraco negro porque essa zona misteriosa podia acabar comigo e com ele ali numa fracção de segundos e se é certo que o caos sempre me atraiu, também não valia a pena entrar na quinta dimensão. Mas entre o fracasso da quinta e o levar com um asteróide em cima antes da primeira vai uma diferença grande – tudo uma questão de corpo pequeno, portanto!
E nada mais há a acrescentar a este caos depois de mais um fracasso astrofísico: eu a querer medir os fractais, e a apanhar com a imprevisibilidade dos comportamentos das superfícies. Tinham-me dito que mesmo no caos podem ocorrer arranjos e alguma forma de ordem mas parece que comigo o que resulta são os axiomas intuitivos.
Decididamente, vou dedicar-me à astrologia.

domingo, abril 23, 2006

O que é que me falta depois disto?

Hesitei um pouco quando ele me soletrou aquelas iniciais mas um certo ar possante, travado depois por uma estranha atitude submissa, intrigou-me o suficiente para não ficar por ali. E depois havia o aspecto, claro. O brilho da cabeça rapada dava-lhe uma graça acrescida, tanto mais que pairavam ali uns olhos infantis num rosto de adulto assumido. Uma coisa que atraía e amedrontava sem se perceber porquê.
Disse-me que detestava baunilha, mas como eu tinha perfumado nessa manhã com um aroma adolescente de framboesa, julguei ter ouvido uma voz aprovadora.
Enquanto bebericávamos, ao som da batida musical envolta em semi-trevas, num local onde eu tinha ido parar sem saber ao que ia, falou-me do seu gosto pela beleza do corpo feminino, que comparava a um local de culto, assim como um altar de sacrifício. Aprovei-lhe o gosto, respirando mais solta por tão vinculada orientação sexual, que hoje em dia nunca se sabe se o nosso companheiro dos copos não vai confessar-nos outras coisas ante a nossa expectativa de fêmeas disponíveis.
Arrastou-me depois para um local mais protegido dos olhares e desviou a cortina, fazendo-me entrar. Deliciei-me com o beijo mas incomodou-me que me paralizasse os movimentos enquanto me inundava de boca e língua.
Quando me habituei ao escuro da saleta divisei as iniciais gravadas na parede – BDSM – e surpreendi-me com a quantidade de acessórios que por ali estavam, ao dispor das mãos. Chamou-me cadela. Já não estava a gostar da brincadeira!
Pior foi quando me falou em barras de imobilização e me disse que podíamos alternar: “agora passas a D…”
Humm??
“Switcher, minha adorada Dona; sou o teu escravo, e sirvo os teus prazeres”.
Onde é que eu me vim meter, pensava eu já meio azamboada com os gemidos que vinham de um sítio próximo, enquanto uma coisa sibilava, talvez um chicote. Era o silvo de um chicote.
“Sou o teu ponyboy, vês?, trago coleira”, e exibia o couro apertado, vincando a pele, sob a camisa preta. E pediu, com ar angelical: “magoa-me, bate-me!, e aprenderás que a dor e a bondage vêm apenas como sinais de poder, do teu poder; e que isso é que é o sublime, nesta nossa relação em que um possui e o outro agradecerá a dignidade do domínio”.
Quando me precipitei para a porta de saída olhei de relance para um indivíduo que se sentava, altivo, junto de três figuras femininas ajoelhadas e de cabeça para baixo.
Só tive tempo de fingir ter perdido a carteira, acocorando-me para a procurar, no que incentivei o porteiro a ajoelhar ao meu lado o tempo suficiente para, de sapatos na mão, deitar a fugir pela rua abaixo até mandar parar o primeiro táxi que me apareceu na noite.
Livra! PQOP!!!
"Como disse, menina?" perguntou o taxista, surpreendido.
Puta Que Os Pariu, disse eu, respirando aliviada.

sábado, março 11, 2006

Coisas estranhas


Ando mesmo pouco inspirada!

... ou será a minha parte obscura a dizer-me "tens de respeitar as diferenças!"


Humm!!! Pensando bem: isto é mas é o poder feminino!

domingo, março 05, 2006

Mal empregados!!!

Voltei, pois, à minha vidinha de faustapaixonada ou em vias disso depois de ter confirmado que não vale a pena entrar em lutas de grande monta para lugares cobiçados por milhares de esfomeados da fama, embora esse seja o estímulo nacional neste instante das nossas insípidas vidas de cidadãos sem futuro na produtividade mundial.
Mas dizia eu que voltei às lides. E nem foi preciso puxar muito pela cabeça, bastou sentar-me numa sala de cinema, onde tinha ido sozinha para ver se não me distraía com as mãozinhas dos companheiros que se estimulam em qualquer ambiente escurecido.
Estava a tentar perceber como se quebra um mito, visivelmente incomodada com o amor expresso entre dois duros do oeste que devem ter-se deixado hipnotizar pelos instintos das vacas e respectivos machos cobridores, quando o meu companheiro de plateia me disse baixinho: “olha que nem todos sucumbem às tendências da moda!”
Olhei para ele, ainda um pouco incrédula e já com as luzes acesas dei de caras com um exemplar magnífico do lindo sexo.
Palavra puxa palavra, opinião puxa opinião, corpinho puxa corpinho… e eu tive de ir confirmar aquele aparato promocional, coisa a não perder nos dias que correm, pois normalmente uma mulher olha para o lado, entusiasma-se e logo de seguida já o rapaz está a ser abordado pelo namorado, que rapidamente o livra de olhares femininos. Se não acreditam passem pelo Chiado.
Mas devo dizer que a confirmação, desta vez, valeu o dia. Ou a noite?

sábado, fevereiro 25, 2006

limpo ou liso?

No chat tínhamos combinado que eu iria toda de vermelho para ser facilmente reconhecida. Mas eu gosto é de lhes trocar as voltas e apareci a preto e branco. Mais sóbria, portanto. E fiquei a vê-lo de longe, de guarda-chuva amarelo na mão, percorrendo a praça em passinhos de espera. Sentei-me na esplanada a mirar-lhe as formas. Só não gostei daquela maneira de levantar o pescoço a parecer uma girafa em dia de “olhem para mim que sou diferente”, mas uma vez aprovado o pacote, apareci.
Que era gira, que as mulheres gostam de fazer surpresas e coisas assim de circunstância e lá fomos ao café. Tinha-se esmerado no aspecto. Tinha um rosto hidratado, as mãos macias e um aroma gostoso. Os homens andam a cuidar-se, pensei eu agradada. Até as sobrancelhas pareciam seguir uma forma cuidada. Apeteceu-me vê-lo mais de perto e lá fomos, que o tempo não é coisa para desperdiçar.
Poupo-me, pois, a detalhes intermédios porque isto de encontros combinados desta maneira não tem nada de novo para ninguém e qualquer descrição do episódio seria redundante.
Fixemo-nos, então, nos finalmentes porque a novidade estava para vir. Não foi por acaso que aquele ar com que o vi à minha espera saía dos parâmetros ditos normais.
Se há muitos assim ou não é caso para ir comprovando mas a verdade é que a certa altura a minha mão aventureira deu de caras com uma pele lisinha, lisinha, num lugar onde normalmente há uma cabeleira farta e quente. Depois confirmei que toda a pele era assim macia e limpa, desde o peito às pernas, pelo que deduzi que a depilação foi integral.
Perguntei-lhe, enquanto ele se esticava, de costas na cama. Falou-me de higiene e de conforto: “não gostas mais de homens limpos?”, foi a questão com que eu tive de lidar, ali, em pleno acto, enquanto me perguntava a mim mesma se de facto aquilo era limpeza ou não seria mais uma imitação que o sector masculino não perdia, neste seu percurso de afirmação, à século XXI.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Top Secret

Primeiro disse que era Top Secret. E a mim nem me passou pela cabeça mexer no assunto, que me bastavam outras mexidas mais reais. É que nada ali estava a mais, nem uma prega, nem uma ruga, nem um sinal sequer que quebrasse a textura da pele. Mas não tirava os óculos escuros. Só isso é que me importunava um pouco.
Em murmúrio começou a falar de estruturas organizativas e da transferência para um pólo único. Polarizada estava eu, toda aninhada na firmeza de uns braços militarizados. Era o que eu pensava. Por isso não desconfiei de nada quando começou a dizer que tudo estava ainda no segredo dos deuses. E mostrava-me, olhando para um lado e para o outro, como que temendo a presença de testemunhas, os seus segredos interiores. Pediu-me que usasse também uns óculos escuros. Assim estaríamos a salvo, dizia. Alinhei. É excitante introduzir outras formas de olhar o assunto no momento exacto e as lentes pareciam dar ao acto um sentido de coisa proibida. Apetecida, portanto.
Apetecível a conversa, enquanto as mãos deslizavam e me avaliavam. Vi-lhe uma expressão de discordância; eu sei que não sou exactamente uma menina do gás mas não se pode viver só de aparências, dizia eu.
Quando me começou a falar de um novo canal ao mais alto nível da cúpula, entusiasmei-me. Mas misturava referências que me baralhavam o entendimento: pesquisa e tratamento de dados, duplicação de canais informativos, eficiência ao nível das secretas de todo o mundo. Já não estava a perceber se devia entusiasmar-me nas expectativas ou desconfiar da sanidade mental de tão promissor corpinho.
De repente deu um salto para o meio da sala, compôs os óculos e disse, determinado: “Não dá! Seguramente estás ligada a uma rede terrorista. Tenho de avisar o Sócrates!”
E foi assim, meio grega, que dei comigo a exercitar a maiêutica, repetindo vezes sem conta: "eu só sei que nada sei" e jurando a mim mesma não voltar a trazer para casa indivíduos camuflados atrás de óculos padronizados.
E agora? Que será de mim? Será que a secreta vai passar a perseguir-me no meu trivial quotidiano de mulher apaixonada?
Terei de contratar um guarda costas.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Vendedores de cuecas precisam-se ou hoje estou sem sentido de humor

Às vezes apetece-me furar-lhes os olhos, abanar-lhes os ombros metidos naqueles casacos que nunca vestiram antes e que brilham de presunção pouco aprumada, jogar-lhes à cara os discursos que a sua memória curta enfiou em pelo menos três sessões de palavra-atrás-de-palavra e mandá-los ir para a escola aprender a conjugar os verbos na segunda pessoa do singular do pretérito perfeito.
Quando me aparecem à porta posso gerir a situação à minha maneira ou simplesmente não abrir e eles desistem.
Contudo, no local de trabalho não se supõe que apareçam, por isso não convém fazer cenas; e lá vem o politicamente correcto “não, obrigada, não quero”.
Desta vez interiorizei bem a correcção ou os bons princípios e quando me perguntou pela segunda vez se queria comprar a caneta com auriculares que me dava música enquanto escrevia – estava eu no intervalo dos afazeres e procurava tomar um café e ponderar a paciência para aguentar a hora seguinte, que não é fácil estar à beira de sete ataques de nervos e saber que o que esperam de nós é um sorriso aberto e muita calma –, puxei dos meus nervos de aço e perguntei sorridente: “e cuecas de fio dental, tem?”
O rapaz olhou para o fato do outro, porque o rubor da face não lhe permitia levantar os olhos, e os dois olharam para mim incrédulos, devolvendo ao saco as embalagens tipo made in Taiwan mas a puxar para o fino. E assim consegui virar-lhes as costas e rir-me de mim, que outra coisa não me satisfaria mais naquele momento.
Livrei-me pois de ouvir ainda as vantagens de comprar um aparelho para medir a tensão arterial, experiência feita ali mesmo para ver o estado da dita, uma almofada vibradora para massajar a cervical ou a mala-de-chaves-de-parafusos-tipo-oferta-da-semana-do-Lidl, que eles exibiam em cima da mesa onde os meus papéis gemiam de afronta.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Noite misteriosa

Estou profundamente atordoada.
o meu relatório pode ter saído confuso, mas podem crer que depois de Exercícios Espirituais relatados no dela as coisas poderão ter mudado muito...

Do que me lembro melhor é da contemplação da imagem do espécimen dito divino que ela publicou lá na salinha onde se chutaram trezentos e tal comentários esta madrugada. Sem sinais visíveis de divindade no deus exposto e à falta dos amigos do Adriano - esses sim de fazer crescer água na boca – decidimos que nos encontraríamos as duas para comprovar se seria moda ou não essa coisa de percentagens na capa de jornais. Seríamos nós meninas de fazer engrossar as estatísticas ou outras coisas igualmente mediáticas? Pelo sim pelo não montei-me na minha vassoura de cano grosso e fui a caminho do mundo misterioso da cenestesia. (uma vassoura sempre serve para alguma coisa...)
O que vão ler não se aproxima das reflexões filosóficas da Diva, companheira de escritas famosas mas também de certos desconsolos. Sou eu mais de coisas materiais do que espirituais, logo, não foi para mim muito fácil deitar-me naquela cama onde pairavam dezenas de outros espíritos em manifesta promiscuidade. Mais habituada a coisas prosaicas achei que iria ali estar para o que desse e viesse.
Ela diz que viu coisas, pernas a colarem-se a pernas (eu diria a empernarem), penetrações de corpo e bandeiras harmoniosamente espetadas; fala-me de cenestesias, sensações vagas internas ultranormais… e essas coisas que as mulheres pensadoras sabem dizer.
Eu por mim lembro-me daquela luz ofuscante quando ela me mostrou o sinal no mamilo e a seguir só me lembro do Santo Inácio me perguntar se era mais vontade ou mais sentimento e se o achava mais deus ou mais macaco; não sei se se referia à barba ou àquela coisa de “disse deus ao homem: não te fiz celestial nem terreno, mortal nem imortal; poderás tu próprio, pela tua vontade, tornar-te bruto irracional ou alcançar a perfeição”.
Como um santo de bruto não tem nada, pedi-lhe para me mostrar a perfeição. E ele deve ter feito algo de muito perfeito porque foi nessa altura que senti alguma coisa penetrar o meu corpo. Ora se ela diz que nós nos fundimos e eu vi claramente visto que o Santo Inácio acordou todo amarfanhado, terá sido uma tripla fusão? (diria trisão). Terão sido as courgettes que levei escondidas na palha da vassourinha para o caso de a coisa não correr bem?
Depois fiquei ainda mais baralhada com o ressonar. Não percebi se era o Finúrias ou o Manel. Ela diz que os viu mas eu (que não sou nada sem a bola de cristal que atirei ao mariconço), estava ofuscada com a luz vermelha que o outro projectou em mim e acho que não vi nada a não ser este foco que ainda me está a toldar o raciocínio.
Alguém me pode explicar o que se passou, fazendo o cruzamento dos dois relatórios?

...a recuperar!



... ainda não estou em mim.
Preciso de mais umas horas para conseguir ver a luz do dia, tal é o efeito da fusão nocturna.
Foi coisa única!

terça-feira, janeiro 03, 2006

O acidente do Valentim Matias

Devolvi o anel ao Vasco Nabo. Aliás cedi imediatamente e nem quis ouvir mais nada depois da dureza do “não me digas que o perdestes?”.
Respondi-lhe em graves: “não viste que o deixei em cima da cama?”.
Não costumo guardar más recordações. A vidinha tem muitas curvas e o Valentim Matias tinha o joelho bem caloroso quando o encostou ao meu por baixo da mesa. E, na verdade, tanto quanto lhe ouvi as falas, nada a apontar. Só um ou outro som distorcido pelo sibilar dos ésses, mas também eu andava a falhar em alguns pormenores, por isso estava tudo a condizer.
Ora bem, fomos aos fados. Era outra vez uma mesa larga e farta, cheia de gente, que tudo o que é de prazer faz-se em conjunto.
Ao afrouxar das luzes ele beliscava-me e eu tentava manter a compostura, que a situação era de respeito.
Ao intervalo dizia a Silvina: “ainda me falta um fadista no meu currículo”, mas um fadista sempre é um fadista e ela era rapariga espinhosa. Aconselhei-a a procurar antes um toureiro.
Mas eu conto. O Valentim deve ter-se enternecido com o xaile da madura, porque ficou a babar-se e a dizer-me que gostava que lhe vendassem os olhos com écharpes de seda.
E pronto, daí a nada estávamos no quarto a brincar à cabra-cega. De braços esticados, o Matias falava-me em seguir a intuição e dizia que trocava tudo pelo sentido do tacto. Às tantas sentei-me num canto a ver homem a andar à roda.
Não sei se foi da tontura ou do tinto propriamente dito, o que é certo é que o pobre estava com dificuldades em manter-se de pé e quando as pontas da écharpe se prenderam no puxador do roupeiro, o Valentim deslizou no tapete e antes de cair ainda deu uma cabeçada no tampo da mesinha de cabeceira.
Bem, poupo-vos os pormenores ensanguentados. Só vos digo que dali até ao hospital Amadora-Sintra ainda levámos uma meia hora. Mas o pior não foi isso.
Também me entendi com a enfermeira de serviço pedindo-lhe discrição. É que tive a sorte de dar de caras com a Sónia Susana, filhota da Josefa Félix que era minha amiga de longa data. Lá lhe contei o sucedido e ela a dizer que ficasse descansada que são coisas que acontecem, que era bem feito, que ia suturar o senhor sem lhe fixar o rosto, que o esqueceria logo de seguida, etc.
O pior foi mesmo quando o Matias entrou na sala e me disse baixinho “'tou feito! é a minha nora!”

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Ezequiel vs Motel

Lembrei-me do Ezequiel. É normal que por esta altura da quadra natalícia a gente se lembre dos que nos são queridos. Salvo seja, que o Ezequiel só me ficou na memória pelo oposto. Coitado! Não é bem assim, o senhor era querido com aquele seu jeito de estar sempre aberto às modernices. Dizia ele!
O certo é que o Ezequiel insistiu em levar-me para uma tarde bem passada num colchão de água numa quinta-feira deste Agosto quente em que o país ardia. E ele também. Mas a Sra. Dona Matilde não era muito dessas coisas. Dizia ele.
Combinação feita e às duas da tarde lá estava eu no estacionamento menos três do shopping, que o Ezequiel tremia com o medo de ser visto e ali sempre se estava no submundo. Expressões sempre cautelosas as dele, enquanto eu franzia o sobrolho e evitava replicar para ver onde iam parar as modas.
Dirigiu-se para os arrabaldes e, enquanto conduzia o Bentley preto, exultava naquele desassossego próprio das crianças antes de abrirem o laço do presente. Chegados ao portão accionou precipitadamente o travão e esticou o braço pela janela, gaguejando para a meia figura adelgaçada. Recolheu a chave e o carrito lá deslizou para a garagem individual que dava acesso ao reduto onde a água do colchão se espelhava nas paredes e no tecto. Tive tempo para apreciar os peixes que nadavam por todo o lado, embora paraditos e as folhas das palmeiras que caíam sobre a cama, dando a impressão de estar numa incubadora em forma de aquário. Despida sobre o colchão que oscilava sob a minha impaciência, vi aparecer uma cara atrapalhada onde uns olhos piscavam nervosos. O Ezequiel não parecia saber onde colocar as mãos que hesitavam entre o comando do televisor e o Nokia , enquanto tentava articular sons. Deitei-lhe uns olhos lânguidos, chamei-o com os braços. Homens tímidos nunca foram problema, cedem de olhos fechados, enquanto canalizam para o tacto o sentir dos outros sentidos. E a cama era acolhedora.
…..

Às três da tarde resolvi dizer-lhe que era melhor regressarmos. Não adiantava tentar resolver mentalmente outra meia dúzia de raízes quadradas. O Ezequiel amarfanhara-se numa ansiedade morna, olhava o Rolex que se lhe destacava no pulso, enquanto o Durex perdia relevância. E exibia a Montblanc, lembrando a quantidade de trabalho que tinha ainda de despachar no seu gabinete.
E ali mesmo, sem termos tido tempo sequer de abrir a garrafa de champagne que fizeram deslizar para dentro da caixa colada à porta, eu própria antecipei o despacho. E respondi-lhe de pronto "Voltar na terça-feira? Eu?"

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Nas lonas

A minha amiga Hipatia, além de ter amigas que lhe dedicam quadras, tem também um amigo que lhe faz desenhos. É o Gaivina, que nem tem nome de gente, mas enfim...
Eu não sei se ela é como ele a pinta, mas que ele tem jeito, lá isso tem.

Ora vejam...


Anda uma gaja a dar voltas à vida e de repente vê-se nua.
Fosga-se qu’os homens são do piorio e já me estou quase a passar.
Convidou-me p’ra jantar. Paguei. Está certo. Era só a minha parte, mas já não há gajo nenhum que convide e pague, nem os cotas.
Depois levo-o para casa, que o menino vive em casa da mamã com mais dois irmãos quarentões.
Velas na mesa, musiquinha chillout para descontrair e aroma de mentol nas velas. Tudo à maneira.
Que gostava de me ver deitada, que me despisse e representasse uma cena erótica, que soltasse os cabelos sobre as mamas, que tinha o fetiche das roupas femininas. E eu a ser levada! O gajo era bom, é verdade, mas eu nunca mais deixo de ser ingénua.
Bem, ingénua… ingénua não serei; o que sou é assanhada, pronto, reconheço-o publicamente e não tenho que me intimidar com as confissões porque aqui vale tudo.
Depois lá fico eu a fazer de mona: tapo a mama, destapo a mama; viro-me de frente, viro-me de lado, viro-me de costas; ponho a mão, tiro a mão; volto a pôr a mão, deixo a mão; ajoelho-me, levanto-me, passo a mão p’lo pêlo, mexo as ancas, remexo as ancas...
Quando olho para o gajo está ele vestido com as minhas roupas! Imaginam a cena?
“És um anjo”, dizia ele, “e eu quero ser como tu, deixa-me cair nesse abismo feminino que me atrai e onde sinto desabrochar a minha natureza”. Desabrochar? E eu à espera do quê?
Vai na volta agarra-se a mim e implora “bate-me, enfeitiça-me e deixa-me ser como tu!”
……
Porra!
Não é filme, não!
Aqui vai o desenho dos restos.
A Fausta abandonada, com este corpinho danoninho ali sozinho e desolado e o gajo a fugir c’as roupinhas e a enfiar-se no elevador. Só lhe vi os restos de rímel a desfazerem-se em borrões pela cara abaixo. E lá foi a colecção toda do Paulo Coelho pelas escadas, que era o que estava mais à mão e enquanto o elevador não chegou comeu com todos em cima!
Mas o pior mesmo foi a bola de cristal. Isso sim é que foi uma pena!

sexta-feira, novembro 11, 2005

Norberto da perna de pau

Quando comecei a dar-me com o Norberto antevi lindos cenários de partilha. A novidade empolga-me sempre e toda a gente sabe que sou muito senhora do meu umbigo e que os louvores me assentam como luvas pretas de cano alto.
Partilha, porque me agradava sair com ele para a rua e ser olhada como companheira de uma tal figura: é que o Norberto usava uma pala negra sobre o olho esquerdo e compunha o brilho encefálico com um lencinho vermelho preso à testa.
No princípio achei-lhe graça mas quando, na intimidade, calhava apetecer-me fantasiar com tal adereço, o rapaz perdia a compostura e era como se desarmássemos um cow boy ou deixássemos sem cavalo o D. Quixote – ficava a olhar-me como um menino indefeso com um ar de fazer dó.
Ora eu, que gosto de homens pujantes e enérgicos, naquelas alturas aproveitava para lhe atirar com o lenço à testa e sair porta fora para respirar ar fresco. Porém, voltava sempre ao Norberto.
Mas o pior mesmo aconteceu a semana passada, já eu andava um bocadito farta de fantasias de ganchos a fingir braços manetas e pernas de pau de todos os tamanhos e relevos.
Já tinha caído a noite - o Norberto preferia as performances no escuro - e nós entrámos por ela dentro bem entusiasmados.
Entusiasmo para aqui, entusiasmo para ali, estava eu cheia de boas intenções a mordiscar-lhe a orelha, quando me lembrei de subir-lhe a pala para lhe beijar a pálpebra. Enfim, coisinhas de ternura que animam o bem estar. E vai daí o Norberto levanta-se de um salto e solta-se-lhe a pala, que desliza pelo ar ao toque do gancho que ele exibia na mão direita, e foi vê-la sair disparada pela janela aberta.
E o que é que eu vi?
Vi um homem de olhos esbugalhados, exibindo a careca alva e sem o vermelho do lenço, correr para trás do biombo que separa o quarto da salinha, no meu T zero das avenidas novas, e ficar sem pio nem forma, a palidez a subir-lhe ao rosto e o desânimo a descer-lhe noutras partes, enquanto me suplicava que fosse em busca do acessório. Ao mesmo tempo engolia as palavras que, se saíssem, diriam “sem o disfarce não sou ninguém”.