Mostrando postagens com marcador as satisfações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador as satisfações. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, setembro 27, 2007

Em estado de choque


Ele falava-me de fenómenos eléctricos como quem explica o padre-nosso ao vigário.
Interessadíssima não tardei a levar a conversa ao meu campo magnético, ou antes, ao terminal oposto, pois quando se começa pela entrada dos electrões portadores de carga numa fonte de tensão, fazendo-se a passagem através de toda a espécie de condutores e componentes, não tarda que se chegue à desejada luz.
Garanto-vos que se uma pessoa se interessa pelo assunto aprende num ápice e eu não tardei a tomar o gosto pela produção energética, a bem do aquecimento global e do meu próprio. Além disso não consta que haja alguma coisa melhor, em termos planetários, do que a lógica binária, pelo menos quando se trata de descargas eléctricas em circuitos digitais. É uma belíssima maneira de ajustar o magnetismo aos filamentos dos nossos engenhos internos.
Só me lembro de lhe ter dito que sendo a electricidade um fenómeno físico, não há carga que aguente o estado de repouso e, tão rápido como um raio, ele ergueu-se em toda a sua verticalidade. Depois, exibindo-me um núcleo carregadinho de cargas positivas, levou-me em visível atracção durante um intervalo de tempo delta tê alongaaaaaado.


Nem vos conto mais. Ou ficam como eu, em positivo estado de choque.


quarta-feira, maio 23, 2007

as artes ... indomáveis




Começa-se sempre pelos preliminares, não é novidade para ninguém! Não vou, pois, perder tempo com aquela parte em que ele fez caminho de mãos sobre os meus pés, numa escalada toda feita de arrepios e ais promissores acompanhada de uis inspirados.
Mas também não desejo acabar já o relato com a outra parte mais barulhenta – raios, tenho de mandar consertar a cama! – pois teria de confessar que os vizinhos do terceiro (o meu é o quarto) devem ter danificado o cabo da vassoura de tanto bater no tecto, para eu sentir vibrar no chão o desespero da inveja. Quando me cruzar com ele no elevador hei-de lançar-lhe o meu olhar malvado… e seja o que deus quiser. A ela não lhe falo nem pintada! Uma mulher que não é solidária com as manifestações de normalidade da outra, mesmo que seja pela madrugada dentro, não merece que lhe olhem para a cara! Aquilo deve ser do peso do rabo, coisa de banda larga a dar-lhe aquele andar de pata-choca…
Mas o que me trouxe aqui foi a questão do auto-domínio.
Cortesia, integridade, perseverança, auto domínio e espírito indomável - foi assim que ele disse, por esta ordem, quando me falou no seu desporto de eleição. Quer dizer, a fixação nas artes marciais como coisa de eleição já nem era muito abonatória, mas pronto, o chorrilho de substantivos dava-lhe credibilidade.
Apareceu-me, pois, imaculado num Dobok largo e convenceu-me: foges à rotina, minha!, aquilo é um escape, mas um escape com mais de mil técnicas! E então se for Shoto Kai é o paraíso; repara, os movimentos são sempre suaves e a energia deve concentrar-se num ponto único!

Que esperavam que eu dissesse?
Nem que fosse Tae Kwondo! Ou Shodo Kan! Ou Aikido! Se até movia energias universais!!! Bóra lá! Fosse eu Atena para emparelhar com Marte e seria perfeição o ideal supremo.
Quer dizer… até que nem correu mal. A gente sabe que a a concentração é indispensável mas aquela coisa de absorver a energia do atacante não sei muito bem para que lado funcionou! E o gajo sempre na defensiva! ...
Mas o bom, mesmo… era aquilo do espírito indomável.
O dele?
Não, o meu!
O dele concentrava-se num ponto único!
O meu, bem coordenado com o auto domínio, deu aquele resultado que foi a longa insónia dos vizinhos.

domingo, março 11, 2007

Ai Primavera!

violas cornutas

Dia suculento para passear pelo campo e repetir os nomes das florzinhas e dos arbustos em que se tropeça sob a hipnose da satisfação.
Até aos narcisos, espontâneos por sobre o tapete verde, eu perdoei a vaidade porque as violetas violas, como ele me ensinou – acompanhavam-nos, na sua modéstia, como se dissessem que aos homens esses pequenos defeitos são permitidos sob a nobreza da nossa tolerância feminina.
Amor secretamente escondido no amarelo das acácias, romance nas azáleas, graça na flor do jasmim, cujo cheiro enche a mata de delicadeza.; satisfação plena depois de conhecer a mangifera, especialmente aquela que ele me mostrou no canto mais recatado do bosque. Nada, mas nada se assemelha àquela maravilha do mundo. Talvez só a boca-de-leão, mas em complemento.
Quando ele me pôs na mão um lírio, baixei-me e colhi uma papoila. Onde dizes pureza eu digo sonho, pensei e disse-lho com os olhos. Ou papaver rhoeas, pensei cá para comigo, agora na posse de todos os nomes, embora aquilo de papar com os olhos fosse metáfora ultrapassada depois do trifolium exercitado em pleno bosque.
Não me esquecerão mais as tâmaras, Phoenix dactyliferas, de grande impacto na redução das angústias, melhores do que qualquer raiz de valeriana, não obstante me agradar sempre mais o raizedo aprumado: se o queremos conhecer é fácil… basta ir na direcção do terminal e nada de ramificações pilosas a perturbarem a pesquisa.
Açafates, esporinhas, angélicas, eufórbias… sim, mesmo as eufórbias, tirando a pulcherrima, que à conta de se armar em boa, larga aquela seiva leitosa que é veneno para qualquer pele sensível.
Mas… depois disto… até mesmo uma viola cornuta.

Agora … tanto faz ... já valeu a pena!


quinta-feira, dezembro 28, 2006

Romance em Si maior

imagem daqui


Primeiro perguntou-me se preferia a flauta doce ou a travessa. Por mim gostaria de começar pela doce mas não deixaria de querer conhecer a outra. Então ele veio, munido das duas e deslumbrou-me com a magia da música que parecia contar-me histórias de ninfas e de pastores. Tocava em graves suaves, cheios; em registos médios, brilhantes, melodiosos; e prometia agudos penetrantes, claros e precisos.
O meu lirismo passa imediatamente de presto a prestíssimo, quando um homem pega no seu instrumento e executa melodias que tiram a respiração a qualquer mortal. Porém, nunca me tinha passado pela cabeça que um flautista pudesse ser interessante fora do palco. Não é por nada mas acho-lhes sempre algo de , provavelmente pela associação lexical do deus com os outros. Não era o caso.

Chamei-lhe encantador de serpentes, num murmúrio dito ao ouvido, o que o deixou ainda mais brilhante na execução.
À medida que as ondas sonoras se propagavam pela sala, passavam do ouvido à alma e da alma ao corpo, que vibrava, qual metrónomo, com o andamento moderado de tão magnífica flauta.
Entusiasmada com tamanha harmonia era já eu que comandava os andamentos pedindo, nos meus gestos insaciáveis, o ostinato rítmico, acompanhando o cânone em oitava de modo a tirar partido dos meus agudos. Nessas alturas ele acelerava e quando já ia em 60 semínimas por minuto tive de pegar na batuta com as duas mãos e reduzir-me ao pianíssimo, ou a música terminava logo ali.

A flauta é ágil e costuma ser o instrumento usado em passagens rápidas e salteadas – ele tinha-me avisado – mas eu tinha replicado dizendo-lhe que um flautista precisa de saber ter controlo sobre a natureza do seu instrumento, sob pena da peça perder qualidade.
Deliciei-me, pois, um pouco mais, em verdadeiro adágio, atenta à maneira como ele rangia o frulatto ou como usava os dedos tapando e destapando os orifícios para modificar o comprimento da coluna de ar e obter, assim, sons múltiplos, soprados em registos andantes. Usava a embocadura a rigor, no ângulo certo, acrescentando virtuosismo ao desempenho.
Depois, sim, foi a altura ideal para o vivace, fortíssimo, num vibrato extremo como eu não supunha que algum flautista fosse capaz.

Romance digno de registo, este.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Coisas que só se comem em certas alturas

Eu sabia que me estaria reservada uma surpresa para o dia de natal.
Foi como num destes finais de ano em que me prometeram um anjo para o dia seguinte e eu não acreditei: pois ele veio, sim senhor e logo me foi encontrar desgrenhada, ainda em pijama e com as ruguinhas todas acentuadas pela noite de insónia. E veio carregado de tâmaras e passas de uvas. É claro que eu já estava bem enjoada dos excessos da véspera, mas o desígnio cumpriu-se. Vinha tudo um pouco amassado da viagem mas não teve importância, foi o suficiente para ter a certeza de que sou uma mulher com dias de sorte. Pena serem poucos, mas bem pensado, aquilo do outro dia sobre uma queca e um aquecer de pés… a conclusão não foi lá muito vantajosa para o aquecimento global; talvez uma aquecidazinha de vez em quando seja quanto baste para ser bom, porque há uma diferença entre o “até logo” e o “anda cá”. Um “anda cá” parece-se com uma corda e uma mulher não pode ceder a prisões, sob pena de não ter mais nada quente até ao fim da vida senão os pés.
Foi boa a surpresa. Não me lembro de ter vivido antes um momento assim (mas a gente nunca se lembra; quando corre bem esquece-se tudo o que está para trás). É certo que no dia 22 de Dezembro as coisas não correram mal para o meu lado, mas foi aquela cena da obrigação de contribuir para a paz, quase como quando nos metem na mão um saco, à entrada do supermercado, para contribuirmos para o banco alimentar. A gente dar, dá; e até gosta de ajudar os mais necessitados, mas há dias em que quem necessita somos nós!
Pois foi isso, foi assim uma cena entre o “até logo” e o “anda cá”, uma coisa que satisfez a necessidade de ajuda alimentar mas sem ser aquele arroz carolino do costume ou a massinha de pevide ou a sardinhazita em conserva.
Como é que eu posso explicar? Assim uma coisa situada entre um tronco de natal bem trabalhado e um “mon chéri”, que tem de se meter todo na boca para não ficar a escorrer pelos lábios. Coisas que só se comem em certas alturas.
Depois fiquei na paz dos anjos e, ao acordar, percebi que ele deixara na mesinha de cabeceira um pequeno livro com o retrato de Afrodite na capa.

sábado, abril 15, 2006

Relaxamento

Começou, pois, por me massajar os pés para aliviar o entorse. E ainda bem que pôs gelo, porque a massagem tem sempre propriedades caloríferas e a temperatura ia subindo...
Não sei se achou graça à história que lhe contei sobre a causa das dores; ficou muito sério. Provavelmente não viu o filme, foi o que eu pensei. Massagistas e poetas não têm muito a ver, dada a natureza das funções. A mente e a mão, embora associadas em muitos aspectos, ali não mostravam ser gémeas, mas que a mão era valente disso eu não tinha dúvida. E grande!
Mandou-me deitar de costas e percorreu-me a coluna, da lombar à cervical, com os nós dos dedos, de baixo para cima. Deslizava sobre o óleo que me derramou na pele e sentia-se o cheiro do incenso que deixou a arder sobre a bancada.
A seguir trabalhou-me os grandes dorsais em movimentos circulares. Senti as mãos subirem para a cervical de onde fazia deslizar os dedos com suavidade até à nuca. Creio que adormeci. E ele ali a esmerar-se. Tanto que deve ter-me posto noutra posição porque acordei com as suas grandes mãos sobre as virilhas e abri os olhos de espanto. Disse que estava a fazer drenagem linfática massajando as safenas e eu acreditei, deixando-o drenar mais um pouco. Há ali uma zona, como sabem, entre o costureiro e o tensor de faixa lata, na intersecção com o recto do abdómen, em que a passagem das mãos e a pressão dos dedos provoca um aquecimento especial pelo que dei comigo a transpirar. Devo ter-me contraído um pouco, porque o que a seguir senti foi uma palmada no glúteo, para me facilitar o relaxamento, disse ele.
Depois começou a explicar-me a necessidade de alongar toda a musculação para evitar os problemas do encurtamento. Elucidou-me sobre a musculatura, em geral, exemplificando sempre e finalmente passou às técnicas especiais de amassamento para estimular pontos-chave, seguida da reflexologia para o fornecimento suplementar de energia e a dissipação dos bloqueios. Não é que eu me sentisse bloqueada, nada disso. Porém, foi nessa altura que a minha entrega nas suas mãos foi integral.

quinta-feira, março 23, 2006

Ufff...


Cansada mas feliz.
Mas digo-vos que a vida de uma mulher é dura quando começa a reparar nos músculos.
Ele é o bíceps, o deltóide, o rombóide, o trapézio…
Confesso que o trapézio põe-me doida mas o grande peitoral consegue as melhores proezas jamais vistas. Para não falar no grande oblíquo, que me deixou um pouco atordoada devido à volumosa compleição. E, sendo oblíquo, lá tive de me desengomar para lhe dar o jeito. Reconheço que andava a precisar de ginásio há uns meses mas sempre a adiar o momento da grande prova. Não é que estivesse ferrugenta mas uma mulher não pode parar uns dias, é mesmo uma questão de bem estar.
Já com o infra-espinhoso não me senti nada bem e foi talvez pela fragilidade deste que a minha articulação coxo-femural deu sinal, pois tive de fazer um esforço acima das minhas possibilidades para poder controlar todas as células do mecanismo.
Ao nível da camada profunda não foi nada mau. Todos os músculos subjacentes se empenharam bem no movimento das lombares e as rotações, feitas a partir da base da alavanca, foram perfeitas.
Que posso dizer? Aconselhar-vos, claro. A actividade física só tem vantagens!
Por isso… toca a treinar pelo menos uma hora por dia.
Ah… e nunca esquecer os alongamentos, antes e depois dos treinos.

quarta-feira, março 15, 2006

Refeições completas


Foi desde que eu disse que era de boa boca.
Há circunstâncias em que não se pensa no que nos sai para fora da dita (e muito menos no que nela entra) mas não se exija tanta racionalidade a uma mulher.
- Então não saias daí, linda, disse ele, e eu terei todo o gosto em mostrar-te os meus atributos.
Quem me conhece sabe que se há parte da casa que eu abomino é a cozinha. Podendo haver quem me substitua não sou eu que lá caio, não! Por isso apreciei o gesto do Luís Carlos que fazia todo o gosto na exibição dos seus talentos. Disse que só precisava de uns tomates pouco amassados e de um fiozinho de azeite. Aí eu repliquei que ele podia usar também a endívia, que ainda estava dentro do prazo de validade. Não é que uma salada substitua o sabor de um bom condimento, mas desde que não ficasse muito desenxabida já se comia bem o prato completo, embora o valor calórico, para a situação em si, não fosse o mais recomendável.
Pensava eu que seria assim, mas os melhores atributos nunca estão à vista.
E, sim, o rapaz deixou-me de boca aberta, quando se abeirou da cama com o tabuleiro completo:
Minestrone para começar a refeição. Um caldinho bem feito, dizia ele, é a melhor maneira de cativar uma dama.
Saussisson babado para continuar a demonstrar-me os seus conhecimentos de cozinha internacional.
Seguiram-se as courgettes com grelos salteados. Ele disse que apesar de carnívora eu devia provar o gosto especial dos seus legumes. E … confesso que era verdadeiramente especial.
Digamos que só de entradas já estava servida. Por isso intervalámos um pouco. Mas o Luís Carlos era um verdadeiro chef e veio logo de seguida com as espetadas mistas, de uma variedade inimaginável, que eu comi em doses duplas para compensar o consumo energético.
- Não aguento mais, dizia eu satisfeita e a recear problemas de digestão.
Mas, ainda assim, não disse que não ao brioche surpresa – um verdadeiro manjar de deuses, preparado ao natural, dizia ele a querer explicar-me que com molhinho de coentrada ainda era mais delicioso. Mas eu já nem o ouvia, que sou gulosa mas também sou selectiva.
E ainda faltavam as febras à matança, a cataplana de conquilhas e a estopeta de atum, mas uma mulher tem limites nisto de comida a peso.
Bem… para rematar mesmo, só um papo de anjo, embora ainda tivesse provado a banana flambée. Para mim, que sou apreciadora de boa fruta, nada poderia fechar tão bem a refeição divina que o jovem preparou ali de improviso.
Luís Carlos estás aprovado.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Recordando jardins de Inverno...

Enquanto me detenho nas reflexões - que as minhas terminações nervosas ainda estão em estado de choque e precisam de uma avaliação satisfatória sobre as causas que as fizeram entrar em curto-circuito (curto?,mas não era longo? foi o vinho que duplicou tudo, está visto) para ver se aprendo a lição e a repito – vou-me lembrando de outras cenas bem acompanhadas, particularmente na qualidade dos vinhos.
A memória leva-me para um restaurante lisboeta num frente-a-frente caloroso – lembro-me que a travessa estava pousada em cima de uma pedra aquecida – com o Luís Delgado. Coincidência ou não, parece que há nomes que nos perseguem.
Era a nossa primeira vez, embora o jantar tivesse sido antecedido da primeira prova, que uma mulher não gosta de ser apanhada desprevenida nestas coisas de sabores novos.
Estávamos, então, à mesa e o Delgado sugeriu que fosse eu a provar o vinho que o empregado veio servir com aquele desvelo próprio de quem faz uma perninha ao fim de semana. Quando pego no copo e o levo à boca… olhei assim à altura dos olhos e dei com a cintura do jovem e zás, dei o primeiro gole; subi um pouco os olhos e fixei-me nos dele e só me lembro de ter dito: “pode servir, são lindos!”
O Luís ficou sério, mas não lhe faltava fair play, como muito bem demonstrou lá em casa, antes do jantarito, quando trouxe a vassourinha da cozinha para apanhar os vidros do flute que eu tinha acabado de partir com um pé desastrado, no chão, junto ao sofá. Por isso sorriu à minha ousadia e perguntou apenas se os dele ficavam muito atrás. Não, nada disso, os dele eram mais oblíquos, mas de um verde-garrafa-de-tinto muito sugestivo. Os do jovem eram cor de uva-preta e deitavam chamas. Ou era eu que as via, porque o vinho começava a incendiar-me!
Lembro-me também de ter precisado de ir de passeio até àquele lugar onde temos sempre de ir a meio de um jantar para telefonar à amiga mais íntima e dar uma palavrinha de assentimento (naquele caso era; da última vez tinha sido para rir aos molhes com a explicação do formato daquele contacto virtual que, ao tornar-se real, trazia agarrados uns óculos de fundo de garrafa).
E lá fui, devagar, para não tropeçar no degrau de separação das salinhas, sempre com os olhos no moço para ver se o rumo ia certo.
E… não sei o que diga mais…. Era suposto que este escritinho fosse só um entretenimento, enquanto o meu período de reflexão se prolonga até me recordar da verdade dos factos da última noite, mas a verdade é que fiquei a pensar naquela que terá sido a noite mais longa da minha doce vida em que eu e o Delgado, que não fazia, de todo, justiça ao nome, não conseguimos dormir mais do que uma meia hora, quando o sol já se reflectia nas grandes vidraças do jardim de Inverno que se fez Verão e que ainda hoje me ocorre à memória muitas, muitas vezes.

sábado, janeiro 21, 2006

A longa metragem

Eu sabia que bastava um sábado mais ensolarado para a disposição melhorar.
Confesso que já estava farta de estar naquela posição a babar a almofada a fazer olhos de carneiro mal morto.
Bem... mas o que eu venho aqui fazer hoje é falar do Sol. Que o Sol é saudável já todos sabemos; que tem um calor aconchegante, também. Mas que chega a brilhar de noite, aqui a 38º42´N e a 9º11´W é uma coisa que eu fiquei a saber ontem. E digo-vos que o brilho de um Sol nocturno é mil vezes mais brilhante que qualquer outro, sobretudo quando aquilo que aos olhos é dado apreciar antes de outras provas é de tal maneira ofuscante que temos vontade de lhe chamar astro-rei.
Querem que conte?
Jantar à luz das velas, brasas espalhadas por fora e por dentro, que a noite arrefeceu húmida, embora a temperatura se elevasse por si, rótulo engarrafado há tempo suficiente para sentir que o maduro que o provou era de qualidade, empregados solícitos e bem feitos, que os meus olhos não se ofuscaram com o álcool, e, enfim, um prato grande e colorido, sendo isso o menos importante da festa, uma vez que outras coisas igualmente grandes ou de maior dimensão estavam para vir. Ingredientes de começo de noite. Com outros sabores à vista, como adiante vos direi.
Não sei como descrever o envolvimento. Sou normalmente mulher de emoções vivas e espontâneas e é certo que me venho a sair mal com isso desde há muito. Contudo o meu coração não desarma nesta luta pelo encontro daquele homem que tem tudo para encher as minhas medidas.
E não é que o jantarito foi seguido de uma conversa mesmo à medida?
Os meus olhos, treinados no charme depois destes dias deitada a ouvir Ramazzotti e a minha voz, adoçada pelo aroma do tinto, pediam sobremesa.
E o Luís Maduro, bem bebido mas com a sobriedade que caracteriza os bem nascidos, sugeriu-me que víssemos um filme em casa dele.
Eu podia lá dizer que não! Pois se nem sabia já onde tinha estacionado o carro! Por isso estacionei num sofá preto de qualidade e aconchego. A sala estava aquecida e quando me enterrei no cheiro a couro quente senti que se me agravou a tontura. Se não agisse poderia desfalecer. Passei, pois, à acção, qual protagonista que não se quer secundária. E outra tontura, maior ainda, veio logo de seguida, que o Maduro já tinha visto o filme e fez-me o relato completo dos preliminares antes de me deslumbrar com o final mais emocionante a que assisti nos últimos tempos.
E foi longo o filme.
Nada das curtas metragens com que outros mais verdes no desempenho me têm brindado e que muito me desligam do gosto pelas fitas.

sábado, outubro 08, 2005

Julião

Conheci-o numa pista de dança, entre fumo, decibéis e olhos a piscarem. Destacava-se entre os demais, pés colados ao caleidoscópio do piso, enquanto todo o corpo abanava saindo dele, a um tempo, a rotação e a translação da terra. Fechava os olhos e acolhia um continente inteiro nos braços abertos, enquanto as ancas erotizavam o ritmo da música. Pista cheia em noite de sexta-feira, abandonado o dever dos dias pela troca voluntária e desejada, cheiro a corpos já transpirados mas ainda com o aroma frutado do duche que antecedeu os arranjos ao espelho, ensaio de gestos semanais nos outros, os que imitavam a natureza enraízada dos genuínos.
Fiquei colada ao movimento que saía daqueles poros castanhos, enquanto o tecto rodopiava sobre a minha cabeça, um pouco entontecida de gins tónicos e cigarros no cinzeiro que o empregado careca vinha zelosamente substituir.
Colada aos olhos que piscavam, os meus pela cinza do fumo que envolvia já os pensamentos, os dele pela tontura cega que saía dos meus, segui em hipnose até ao centro da pista e enlacei-me nele. Enlacei o aroma achocolatado da pele molhada, o colorido dos panos e o som das mornas sob o sol queimado. Julião correspondeu ao meu abraço e levantou-me no ar, primeiro, pousando-me depois na sua frente, olhos nos olhos ao sabor da música que não parava, não parou a noite inteira, entrando eu na euforia da dança ou a dança em mim, que a destrinça era difícil e a embriaguez impossibilitava o discernimento.
E quem desejava o discernimento naquela noite feita de ritmos e afagos, eu?, ele?, alguém ali na pista queria parar para pensar um pouco no dia seguinte ou no dia anterior ou apenas num pequeno pedaço de tempo que não fosse o da oposição alternada da luz, entrelaçada no som e nos movimentos do corpo?
Apaixonei-me. E vivi, numa noite, o ritmo e a cor inteira de um continente para além do meu.

F. P.