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domingo, outubro 09, 2005

Jorge Rebelo Tinto

Eu já devia estar avisada sobre a complexidade da mente artística. Não é que cada homem seja um artista ou contenha em si um artista, que as artes masculinas são assim umas coisas mais ligadas ao bricolage, coisas de encher garagens ou arrecadações com todas as inutilidades que já não cabem em casa. Mas dizia eu que devia estar avisada sobre as artes ditas nobres, uma vez que o pianista e o dançarino tinham arte inata e nem por isso deixaram intacta a minha alma apaixonada. Artifícios da vida! E se a vida não é mais do que um rame-rame feito de rotinas pasmadas, de vez em quando lá cedemos à pitadinha de loucura que um artista traz e transmite ao cinzentinho dos dias.
E assim dizendo, ou assim pensando, deixei o Jorge Rebelo Tinto instalar-se na minha vida. Ele depois disse que fui eu que me instalei na vida dele, ou melhor, na casa dele, mas foi a solução para estarmos perto, que o Jorge não arredava pé da mansão de família cuja sala cheirava a cinza velha, a mofo e a couros furados pelo bicho entranhado há décadas. Dizia que precisava da minha companhia para lhe inspirar uns textos, mas hoje desconfio que a inspiração tinha outras fontes, pois de mim pouco mais queria do que umas refeições a horas certas e umas garrafas de V.Q.P.R.D. para alegrar o fumo das cigarrilhas. E falava de amor, o Jorge. Amor em versos emparelhados, sonetos de rima pobre, repetidas as palavras de paixão em acessos de euforia que lhe agudizavam o tom de voz.
Por amor apliquei cera nos ladrinhos, preto- branco, branco-preto, para que o cheiro a passado o encantasse nas noites de Outono, quando a chuva batia nas vidraças grandes e ele dizia inspirar o cheiro para se inspirar para as letras. Inspirava também eu, farta do tec-tec da máquina de escrever, pela noite dentro, para depois suspirar de pasmo e de abandono.
Por amor desfiz os fios das teias que aprisionavam as histórias às paredes, dizia ele; recuperei a armação do globo, já tombado sob o peso universal das suas escritas famosas e trouxe folhagem dos jardins para encher jarras de cristal antigo.
Foi também por amor que avancei a quantia necessária à edição de autor com que fez sair o último livro, entre choros de homem sensível e beija-mãos lambuzados de gratidão.
Depois disso não avancei mais nada. Nem por amor. A não ser a marcha-atrás que agora faço sempre que um homem me diz que gosta de palavras, a querer já meter-me na frente dos olhos textos adornados de poesia, olhando-me com ar de quem espera elogios e aprovação. Malditos escritores famosos!

F. P.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Francisco

Quando vivi com o Francisco já ele estava viciado nas conversas on line. Fazia serões alongados pelas madrugadas e deitava-se quando a luz do dia já entrava pelas janelas do apartamento. Nessa altura eu tinha de me levantar – a um de nós cabia o dever de suportar as despesas da casa – para me dirigir ao balcão da pastelaria Flor da Terra, onde passava o dia a tirar bicas e a servir meias de leite e sandes de queijo, se era manhã ou a pegar à pinça folhados de salsicha e croquetes, pela hora do almoço. Tinha depois uma escassa hora para engolir a sopa e nesse intervalo subia as escadas para chegar ao terceiro andar encontrando-o, invariavelmente, deitado.
Je suis fatigué” dizia-me, quando lhe abria a porta do quarto, hábito que lhe vinha da infância ainda fresca, pensava eu, enquanto desligava o computador para encurtar a conta da electricidade, recebendo depois um “alors, que fizeste tu?, eu preciso de travailler!"
Fora a mãe que lhe falara naquele trabalho, que podia ser feito a partir de casa, pois o Francisco não se adaptava ao convívio com as outras pessoas que lhe observavam o hábito de comer croissants a toda a hora e recebiam com estranheza a sua pronúncia. Se fosse numa grande cidade, une grande ville, dizia ele, lembrando os dias da metrópole francesa, ninguém reparava nas diferenças, mas ali, na vilazinha dos arredores, todo o mundo se interessava em saber os detalhes e isso enervava-o; “ça m’enérve", dizia ele enquanto ligava de novo o aparelho para ficar em contacto com o mundo.
Havia dias em que o Francisco parecia não ter mãe. Nesses dias assumia outra alma e esquecia o acento, para falar pausada e ininterruptamente de coisas que me eram estranhas. Dizia-se trompetista e parecia recordar melodias que trazia escritas desde sempre, ou que lhe saíam de improviso, era quase impossível saber porque a pessoa negligente que dormira durante todas as manhãs despertava da letargia e ganhava uma força que o mantinha acordado dias e dias, sem descanso nem lamúria. Falava e voltava a falar, precisando que eu me sentasse calmamente a ouvir as suas prelecções, esquecendo até que me esperava o balcão da Flor da Vila para o ganha pão, dizia eu, recebendo em troca o riso escarnecido de um ser à beira da transcendência. Amiúde puxava do trompete e soprava, soprava forte, tingindo-se o seu rosto de vermelho vivo, enquanto as paredes estremeciam e os vizinhos gritavam queixas.
Ter-me-ei apaixonado, penso agora, mas já não consigo recordar o porquê das coisas do sentimento.

F. P.