sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Top Secret

Primeiro disse que era Top Secret. E a mim nem me passou pela cabeça mexer no assunto, que me bastavam outras mexidas mais reais. É que nada ali estava a mais, nem uma prega, nem uma ruga, nem um sinal sequer que quebrasse a textura da pele. Mas não tirava os óculos escuros. Só isso é que me importunava um pouco.
Em murmúrio começou a falar de estruturas organizativas e da transferência para um pólo único. Polarizada estava eu, toda aninhada na firmeza de uns braços militarizados. Era o que eu pensava. Por isso não desconfiei de nada quando começou a dizer que tudo estava ainda no segredo dos deuses. E mostrava-me, olhando para um lado e para o outro, como que temendo a presença de testemunhas, os seus segredos interiores. Pediu-me que usasse também uns óculos escuros. Assim estaríamos a salvo, dizia. Alinhei. É excitante introduzir outras formas de olhar o assunto no momento exacto e as lentes pareciam dar ao acto um sentido de coisa proibida. Apetecida, portanto.
Apetecível a conversa, enquanto as mãos deslizavam e me avaliavam. Vi-lhe uma expressão de discordância; eu sei que não sou exactamente uma menina do gás mas não se pode viver só de aparências, dizia eu.
Quando me começou a falar de um novo canal ao mais alto nível da cúpula, entusiasmei-me. Mas misturava referências que me baralhavam o entendimento: pesquisa e tratamento de dados, duplicação de canais informativos, eficiência ao nível das secretas de todo o mundo. Já não estava a perceber se devia entusiasmar-me nas expectativas ou desconfiar da sanidade mental de tão promissor corpinho.
De repente deu um salto para o meio da sala, compôs os óculos e disse, determinado: “Não dá! Seguramente estás ligada a uma rede terrorista. Tenho de avisar o Sócrates!”
E foi assim, meio grega, que dei comigo a exercitar a maiêutica, repetindo vezes sem conta: "eu só sei que nada sei" e jurando a mim mesma não voltar a trazer para casa indivíduos camuflados atrás de óculos padronizados.
E agora? Que será de mim? Será que a secreta vai passar a perseguir-me no meu trivial quotidiano de mulher apaixonada?
Terei de contratar um guarda costas.

8 comentários:

mfc disse...

Deste contigo a exercitar a maiêutica socrática? E já agora, porque não o ensino peripatético de Aristóteles?

pirata vermelho disse...

c'est dure, la vie d'artiste, madame
avec tout ce que vous avez vu fallait ne pas se perdre par un tout p'tit peu de rien

vous me décevez, vraiement...

Su disse...

cuida-te andam aí muitas taras eheheheh
jocas maradas

chuvamiuda disse...

.....ora, receios infundados, não serão apenas alguns mergulhos mal calculados?.....

kiss e bom Domingo!

Mac Adriano disse...

Deixa lá. Esses gajos com "tudo" no sítio costumam ser abichanados...

Lord of Erewhon disse...

Bah!

stela disse...

Bem... sai-te com cada um!
bjs

ivamarle disse...

eu se fosse a ti chamava já o Kevin Costner...