
Era para ser sua
co-pilota, disse ele num telefonema urgente.
Foi há umas três semanas, não havia tempo a perder. Só vos digo que nunca me tinha aplicado tanto nos
treinos. Apliquei-me tanto, tanto... que ainda hoje os meus ouvidos se ressentem da violência, que o ronco do motor de um camião é coisa de abalroar, garanto-vos.
Treino permanente para reforçar a condição física e psicológica...
tudo p’ra cima!, que uma pessoa quando se embrenha na co-pilotagem não pode fazê-lo por menos. Aquilo desgasta... mas desgasta!!!
7915 quilómetros em todo-o-terreno prometiam as quotas máximas. Dezasseis dias de
bem- bom, pensava eu a atacar, à força toda, nos primeiros quilómetros... e sem capotar!
E não seria só trabalho... a segurança (só bombeiros eram 170...), o convívio (com 508 veículos, vá lá... pelo menos metade com co-pilotagem, porque os
motards andam bem por conta própria... acrescentando o suporte mecânico, o mediático e os mirones... aquilo daria aí para cima de mil e tal cromos, à noite, no Hotel). Mais a paisagem, as dunas, os pós, os camelos...
Bem... podem compreender o tamanho da minha frustração, aqui em casa, hoje, a lavrar mais um queixume.
Mas eu conto tudo:
Depois de bem treinados eu e o Diogo Cunha Rego tínhamos todas as condições para efectuar uma boa prova, desde a
potência da máquina à vontade férrea e incontrolável de levar
tudo à frente. Ele apostava n
um bom tempo para as classificativas e eu, colaborante, achei que
uma hora, vinte minutos e trinta e oito segundos, para começar, não era nada mau! Dei, pois, tudo o que me era possível, não obstante os
atascansos sucessivos. E que pica que eles davam! Depois de racionalizado o espaço a bordo para nos sentirmos à vontade, trocámos de centralina e ensaiamos a
tracção traseira; mas a
tracção às quatro, essa sim, firme e segura, era a nossa aposta. Bom
andamento vivo, um espanto de caixa de velocidades, pronta para atacar as dunas de frente, a um ângulo de 90 graus; ou mesmo usando as redutoras (na quarta ou na quinta, pelo menos), para fazer render a prova.
Ele era cheio de cuidados: ajeitou o compressor para encher os pneus nos intervalos, montou um sistema de navegação que incluía um desenrolador eléctrico road-book, um conta quilómetros com comando lateral e GPS orientado e extensível, fez exercício de perícia em terra batida, sem esquecer as zonas dos buracos e... bem... a perspectiva de curtição era o máximo...

Mas não. O Diogo Cunha Rego (o
Dico, como todos lhe chamavam), ali mesmo em cima da hora, trocou-me por um co-piloto com dois metros de altura, cavas longas e uma mota XXL tatuada no bíceps.