quinta-feira, abril 27, 2006

Falta de liquidez


Começou por me falar em sistemas de contas prometendo-me, pensava eu, umas dignas férias numa ilha tropical.
De facto eram generosas as referências aos auxiliares financeiros e às coberturas cruzadas e todos os cálculos tocavam nos fundos como só uma coisa sólida consegue, quase como se quisesse dizer-me que o seu background não oferecia razão para déficits de qualquer espécie.
Não lhe conheci vícios consumistas a não ser as gravatas, coisa que me agradava bastante pois esse acessório masculino passou a ser essencial para mim no dia em que lhe descobri as inúmeras aplicações, todas elas de elevado grau de perversidade; todas boas, portanto. Mas propriamente cativar, só cativou quando me falou na elasticidade da oferta, apresentando-me fórmulas graciosas que desafiavam a minha imaginação com detalhes equacionados em deltas. Dizia ele que a oferta podia ser rígida, unitária ou elástica. Claro está que entendi esta elasticidade como qualquer coisa que permitia dimensões infinitesimais e já me ia crescendo água na boca com a representação gráfica do ponto de equilíbrio. Isto para não falar da oferta rígida, mas essa estava assegurada à partida.
Não é que eu rejeitasse a concorrência perfeita, que nestas coisas as concentrações monopolistas trazem lucro mas só enquanto duram; o facto é que preferia qualquer holding, a ter de ser, quer pelo volume conseguido com a fusão vertical, quer pelo controlo à vista.
Bem, todas as minhas expectativas se viram frustradas quando ele me enunciou os limites ao mecanismo de troca directa: é que a existência simultânea de duas pessoas, cada uma delas querendo adquirir o bem possuído pela outra, podia ter funcionado se nos mantivéssemos no domínio das metáforas, como é do meu gosto. Contudo, o indivíduo tinha um espírito muito numérico e falava de sociedades por acções de forma a vir a usufruir de benefícios fiscais.
E eu? Feita a análise de risco, que valor acrescentado me traria esta cena?
Meu amigo – disse eu – a tua curva de Lorenz é coisa que fica muito aquém do meu valor facial e, como sabes, há muito que o sistema fiduciário deu o que tinha a dar.
E foi assim, por falta de liquidez, que o homem da bolsa se converteu, ali mesmo, em activo incorpóreo.

11 comentários:

Lúcia disse...

arranjas cada cena.

com a bolsa nas ruas da amargura, esperavas o quê?

mixtu disse...

bo, isto está mesmo com falta de liquidez
jinhos

Fatyly disse...

como sempre...bem ilustrado!

Albatroz2 disse...

É que alem da Bolsa andar nas ruas da amargura, as mais valias são tributadas...
O texto está fantastico, parabens

mfc disse...

Gosto desta imaginação incontida que nos trazes aqui a cada passo.
É um prazer sempre renovado.

Rita disse...

Um belo texto: tem um despretensioso toque litarário, muito bem temperado pelas metáforas, que lhe dá classe.

Nilson Barcelli disse...

Brilhante, é o mínimo que eu posso dizer acerca do teu texto.

mixtu disse...

cuida de mis plantas
yayaya
jinhos e vê lá de uma vez por todas se compreendes os homens
yayayya

Fausta Paixão disse...

às vezes acho que eu até compreendo os homens... eles é que não me compreendem a mim.
e quanto a isso, não há muito mais a fazer, para além de umas cenas!

maria_arvore disse...

Eu já tinha lido este teu texto espectacular, pelas metáforas e pela ironia, mas não o comentei logo porque fiquei sem fala.

E afinal é tão mais fácil usar apenas as gravatas dos múltiplos multibancos por aí espalhados.;)

Fausta Paixão disse...

Ó maria_árvore, desta vez foste tu a deixar-me embaraçada!